O fenômeno das marmitas
Depois de oito anos, voltei a andar de transporte público rotineiramente. O que mais me chama a atenção não são os ônibus sem cobrador – função que será definitivamente extinta neste ano em Porto Alegre – ou a implementação do pagamento por QR Code. É a popularização das marmitas.
A variedade é notável. As bolsinhas térmicas têm diversas cores e estampas, podem contar com uma alça comprida que vai sobre o ombro, ou uma mais curta, onde a mão agarra, ou ainda alças duplas, como uma mochila. Com tecido reforçado e formato retangular, não é difícil identificá-las. Além disso, quem carrega uma dessas costuma levar outra bolsa, onde está tudo o que não é comida.
O que aconteceu nesses últimos anos?
Alguém poderá dizer que é herança dos anos de isolamento social. Afinal, a pandemia do coronavírus obrigou muita gente a cozinhar e se alimentar em casa. O bom hábito pode ter sido incorporado ao cotidiano pós-pandêmico. Também é preciso considerar que comer fora todo dia é insustentável para o trabalhador, e não nos recuperamos totalmente do baque econômico daquela época. No Rio Grande do Sul, há um agravante: ainda enfrentamos os impactos das cheias históricas de 2024, que também atingiram o bolso da população.
Mas voltemos um pouco mais, para antes da pandemia. Em 2017, o Brasil passou por uma reforma trabalhista robusta, que prometeu mais empregos formais e mais autonomia para o trabalhador. Na prática, o resultado foi a precarização das condições de trabalho.
Autorizada pela reforma aprovada na gestão de Michel Temer, a famosa “pejotização” pode ser atrativa à primeira vista, com promessas de salários mais altos e flexibilização de horários, o que pode ser uma realidade para um grupo pequeno de profissionais privilegiados.
Mas a maior parte das pessoas afetadas pela mudança atua no comércio, em bares, na construção civil, ou são secretárias e atendentes de telemarketing, segundo um estudo do Ministério do Trabalho. O mesmo levantamento mostrou que, das pejotizações fraudulentas detectadas entre 2022 e 2024 – aquelas em que fica comprovado o vínculo empregatício e, portanto, deveriam ser postos com carteira assinada –, cerca de 56% envolviam trabalhadores com remuneração mensal de, no máximo, R$ 2 mil.
Vai me dizer que essa turma tem algum poder de negociação com seus patrões?
A longo prazo, todo mundo acaba sentindo falta de benefícios como 13o, férias remuneradas, FGTS. O vale-refeição (que, aliás passa por mudanças por um recente decreto presidencial), embora não seja obrigatório para quem tem carteira assinada, costuma ser definido por acordo coletivo. E qual foi outro impacto da reforma de 2017? O enfraquecimento dos sindicatos, já que a lei acabou com a contribuição obrigatória.
Sem VR, a alternativa é sair de casa com a sua quentinha pronta. Até porque, mesmo quem ainda conta com o benefício, também sofre com o aumento do preço dos alimentos nos últimos anos.
Eis a minha hipótese para explicar o boom das marmitas.
Os mesmos que defendiam a reforma trabalhista em 2017, hoje são contrários ao fim da escala 6x1, que está em discussão no Congresso. Disfarçados de defensores dos trabalhadores, antes diziam que o emprego ia crescer, agora dizem que o desemprego vai aumentar.
Promessas e ameaças de uma gente que não come marmita, nem anda de ônibus.
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