
A força do ressentimento
A Alemanha saiu da Primeira Guerra Mundial derrotada e foi humilhada pelo Tratado de Versalhes. As condições impostas pelos vencedores foram tão asfixiantes que contribuíram para o ressentimento que levaria à ascensão do nazismo. Edgar Morin, que lutaria na Segunda Guerra Mundial contra o nazismo, não tinha dúvida de que o tratamento dado aos vencidos havia gerado um efeito perverso. Terá acontecido algo semelhante no Brasil?
A condenação de Jair Bolsonaro à prisão pela tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023 e dos que participaram da depredação do patrimônio público, em Brasília, naquele dia, com aplicação de penas pesadas, pareceu justa a juristas de muitas partes do mundo e foi entendida como um sinal de alerta para quem desrespeita a democracia e seus valores.
Essas condenações terão sido corretas, mas politicamente ineficazes, gerando o efeito colateral de um imenso ressentimento bolsonarista, traduzido em votos para Flávio Bolsonaro, o filho mais velho do ex-presidente mantido em prisão domiciliar? Teria sido mais eficiente tirar os direitos políticos de Jair Bolsonaro por oito anos e deixá-lo solto?
Teria sido mais salutar para a democracia aplicar penas menos pesadas a pessoas, algumas de idade avançada, que se envolveram nos atos claramente antidemocráticos daquele começo de ano terrível para a história do Brasil?
Para Nietzsche, o ressentimento paralisava o fraco. Mas, na prática, ele pode mobilizar descontentes se encontrar um líder que os conduza.
A humilhação cria mártires, sacrificados e supostas vítimas. Na leitura bolsonarista, Lula, que estava preso, condenado em três instâncias, foi libertado graças a uma artimanha jurídica, com ajuda de ministros esquerdistas do STF, e, eleito presidente da República pela força do sentimento de injustiça em torno dele para os seus adeptos, colocou na cadeia os seus adversários.
Num país com tradição de anistia política, o julgamento, condenação e prisão dos chamados golpistas de 8 de janeiro soaram para uns como triunfo do Estado de direito, mensagem dissuasiva e evolução dos costumes, sem “passar pano” como se fez ao longo da nossa história.
Para outros, porém, soou como revanchismo e vingança. Não interessa saber quem tem razão à luz dos fatos, das teses jurídicas ou das tipificações criminais.
Ao final, só conta o imaginário cristalizado. Pode ser que o tiro tenha saído pela culatra, permitindo um retorno ao poder pela via da própria democracia, com perigo de aparelhamento e desidratação dos seus pilares desde dentro. Não faltam exemplos disso no mundo.
Um Maquiavel contemporâneo poderia dizer que a melhor maneira de fortalecer um inimigo da democracia plena é humilhá-lo a ponto de acionar uma máquina de produção de ressentimento em quem tem admiração pelos derrotados ou desconfiança quanto à legitimidade das decisões dos vencedores. De pouco adianta dizer que foi a justiça quem julgou e puniu. Há no momento uma percepção de que a justiça, assim como a mídia, é partidária. Lula foi recompensado com mais um mandato. Bolsonaro também?
Nessa percepção ou narrativa há um porém: um comandante da Aeronáutica, Carlos Almeida Baptista Júnior, confessou ter participado de reuniões no Palácio do Planalto, em presença de Jair Bolsonaro, para discutir um modo de não passar o poder ao presidente eleito, Lula. Outro porém: Valdemar da Costa Neto, presidente do PL, partido de Bolsonaro, admitiu para a Rádio Gaúcha que houve planejamento de golpe. Por fim, foi descoberta na casa do ministro da Justiça de Bolsonaro uma minuta do golpe.