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✉️ A misoginia é reversível?

Edição #40

✉️ A misoginia é reversível?
Monica Bellucci, em "Irreversível" | Reprodução

Irreversível

Quase 20 anos após seu lançamento, o filme Irreversível, de Gaspar Noé, ganhou uma nova edição. A montagem de 2021 foi exibida na ordem cronológica dos fatos. Para quem não conhece ou não lembra do enredo: é a história da busca de dois homens – Marcus (Vincent Cassel) e Pierre (Albert Dupontel) – que querem se vingar do homem que estuprou Alex (Monica Bellucci), namorada de Marcus e ex de Pierre e que foi atacada por um estranho em um local público, em Paris.

O longa, originalmente lançado em 2002, polemizou por mostrar a cena de estupro, que dura nove minutos. Desconheço cena de cinema mais desconfortável para uma mulher. Há ainda outro trecho de brutalidade explícita, quando Pierre espanca um homem até a morte com um extintor de incêndio. 

A narrativa é muito bem costurada pelas escolhas estéticas de áudio e fotografia. Tudo é perturbador, escuro, árido. 

Para mim, a chave do filme sempre esteve no título. Nenhuma vítima de um estupro volta a ser como era antes do ataque. Quem dera fosse reversível.

Tão impossível quanto reverter uma tragédia como essa, é assistir ao filme na ordem cronológica. Eu nunca tive interesse em ver a segunda montagem. Terminar com tudo o que vem depois do estupro seria insuportável.

Veja o trailer

Na versão original, o filme acaba mostrando a vida de Alex antes do estupro. Tudo é mais leve; as cores, mais vivas; a fotografia, mais clara. Esse desfecho me deu um certo alento. Foi tirando de mim o peso das cenas anteriores. A arte tem esse poder.

Muita gente achou desnecessária uma cena tão crua e gráfica, nada sutil. São questionamentos relevantes. Mas a arte se presta para isso, não? Provocar, comover, gerar debate.

E o jornalismo? Recentemente, tenho me perguntado se as notícias sobre violência contra a mulher, que nos últimos meses têm ganhado mais atenção da imprensa, devem ter os detalhes da brutalidade com que os corpos femininos são tratados. É para chocar, justificam. Mas se a simples notícia de uma mulher ou uma criança violentada e/ou morta em contexto de gênero não choca, apelar para a crueldade do crime vai comover o público? 

Mais importante: vai mobilizar a sociedade para a mudança?

Importa se foi com uma facada ou com 18? Ou que tal parte do corpo estava de tal jeito quando ela chegou à delegacia? Faz mesmo diferença? Uma certeza eu tenho: dá muito mais audiência.

Será que tantos detalhes cruéis não reforçam a imagem de que, no fim das contas, nós mulheres somos apenas o que o estuprador ou o feminicida vê: um pedaço de carne. Um objeto que é humilhado, torturado, perfurado, queimado, chutado, esquartejado, colocado em uma mala.

Entendo que mencionar formas de violência como faço agora é diferente de descrever com detalhes a notícia de um crime que tem uma vítima real, com nome, sobrenome e foto estampados. Suspeito que esse tratamento naturaliza o absurdo, banaliza o comportamento dos homens abusadores.

Assim que chega a próxima notícia urgente e terrível que inunda a timeline de sangue e raiva, a gente esquece da anterior. A vida do noticiário é muito menos perene do que a do cinema.

O filme Irreversível me marcou tanto que, passados mais de 20 anos da única vez que o vi, eu volto a ele com frequência. Me faz lembrar que beira o impossível seguir a ordem cronológica da vida real depois de passar por situações como a da personagem Alex. A liberdade da arte de poder girar no sentido anti-horário me fisga – mas logo sou jogada de volta à realidade.

Será que ao menos esse quadro de misoginia crescente é reversível? O que vai impedir que outros homens façam o que fizeram os estupradores de Copacabana contra uma garota de 17 anos? O que vai constranger magistrados que legitimam homens abusadores em suas decisões? Como fazer mudar de ideia um homem que está prestes a matar a ex e se matar depois? Ou o próximo a matar os próprios filhos para atingir uma mãe que decidiu pôr fim ao relacionamento? 

As histórias se repetem há anos. Serão irreversíveis? 

Não sei. Só sei que, por mais um ano, lá vamos nós, em mais um 8 de Março, implorar pelo fim da violência contra a mulher.

As opiniões emitidas pela autora não expressam necessariamente a posição editorial da Matinal.

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