O que está acontecendo com a saúde mental de meninas e meninos?
Sete e pouco da manhã. Duas adolescentes caminham pela calçada em direção a uma escola privada de Porto Alegre. Parecem gêmeas. Além do uniforme da instituição – camiseta de manga curta e legging azul marinho –, têm em comum as unhas pintadas, o cabelo castanho, escorrido e bem comprido.
O movimento da dupla é sincronizado: uma das mãos segura o celular na altura do rosto, com a câmera de selfie aberta, enquanto a outra mão passa pelas mechas de cima abaixo, garantindo que as orelhas estejam tapadas; elas viram a face para a esquerda e para a direita, fazem um leve bico com os lábios, mantêm os olhos fixos na câmera, enquanto as pernas as levam até a escola na confiança de quem faz isso todos os dias.
Sete e pouco da manhã, e elas estavam impecáveis.
Em outra escola perto dali, uma menina de 10 anos chega à aula com maquiagem bem evidente na região dos olhos: “É pra esconder as olheiras”, justifica o uso do corretivo. “Não vivo sem.”
Dez anos.
A primeira cena eu testemunhei, a segunda, me contaram.
Histórias semelhantes se repetem e ilustram como a pressão estética, que sempre foi maior sobre as mulheres, chega cada vez mais cedo na vida das meninas.
Espelho, espelho meu, existe alguém mais triste do que eu?
Uma pesquisa divulgada na semana passada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelou que mais de um terço das adolescentes de 13 a 17 anos no Brasil está insatisfeita com seu corpo; é o dobro do índice entre os meninos.
A disparidade entre os gêneros aparece em muitas respostas da quinta edição da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (Pense). Questionados sobre terem sentido tristeza nos últimos 30 dias, 28,9% dos respondentes relataram o sentimento na “maioria das vezes” ou “sempre”. Quando olhamos para o recorte de gênero, a taxa entre as meninas foi de 41%, enquanto entre os meninos foi de 16,7%. O estudo revela ainda que 25% das adolescentes acham que a vida não vale a pena ser vivida, enquanto apenas 12% dos meninos compartilham da mesma sensação.

Além do recorte de gênero, o estudo também contempla a variável classe, já que a pesquisa foi realizada nas redes pública e privada. Esse fator é mais relevante em alguns casos – como entre as meninas que deixam de ir à escola por falta de absorvente, situação mais comum na rede pública. Já em outros tópicos, como nas questões sobre bullying, os índices pouco oscilam entre os tipos de instituição.
Esses detalhamentos são fundamentais se quisermos aumentar a eficácia de novas políticas públicas ou outras medidas para ampliar o bem-estar de adolescentes. Mas há um contexto social que aparece de forma secundária na pesquisa, e ajuda a explicar boa parte de seus resultados.
Redes tóxicas
Já está bem documentado o impacto das redes sociais em crianças e adolescentes. Em A Geração Ansiosa (Companhia das Letras), Jonathan Haidt escreve sobre como o uso dessas plataformas prejudica esses grupos. Em um dos capítulos, ele explica por que as meninas são mais impactadas do que os meninos. Em resumo, meninas são mais atraídas pela promessa de conexão das redes e preferem plataformas mais visuais, como o Instagram e TikTok, onde a comparação impera. Também são alvos mais sensíveis de críticas em relação à aparência e de adultos predadores sexuais, o que as leva a adotar uma postura defensiva, gerando ainda mais ansiedade.
O caso mais recente a ganhar os holofotes do mundo inteiro é a condenação inédita do YouTube e da Meta (dona do Facebook, Instagram e WhatsApp) por um júri de Los Angeles no dia 25 de março. Na ação movida por uma jovem identificada no processo apenas pelo nome Kaley, hoje com 20 anos, as gigantes da tecnologia foram consideradas culpadas por projetarem suas plataformas para serem viciantes e permitirem que crianças e adolescentes passem horas a fio nesses ambientes tóxicos.
Ela contou no tribunal que começou a usar o YouTube aos seis anos e, aos nove, já tinha uma conta no Instagram. A jovem alegou que as plataformas agravaram problemas pessoais e a levaram a desenvolver dismorfia corporal, depressão e pensamentos suicidas.
A dismorfia corporal é caracterizada pelo foco obsessivo em uma característica física, às vezes imaginada, que a pessoa considera um defeito grave. Ainda sem causa exata, costuma aparecer em situações onde há exposição frequente a um ideal estereotipado de beleza. Alguém mais pensou nos filtros de fotos que uniformizam a pele, aumentam os lábios e afinam o nariz?
A sentença, da qual as empresas pretendem recorrer, vai servir de jurisprudência para cerca de 2 mil processos semelhantes nos Estados Unidos, que buscam responsabilizar as big techs por danos à saúde mental de usuários mais jovens, inclusive em casos de suicídio.
E os meninos?
Entre as vítimas, há meninos, claro. O que me leva de volta aos resultados da pesquisa do IBGE: será que eles sentem-se tristes numa proporção tão menor que as meninas? Ou expressam menos seus sentimentos?
Mulheres, desde a infância, sentem-se mais à vontade para demonstrar vulnerabilidade – o que diz muito sobre como criamos nossas crianças. Menino que se preocupa com a aparência é logo chamado de “viado”, como se fosse uma ofensa. Se chorar, então, é “mulherzinha”. Como se fosse uma ofensa.
O sentimento mais autorizado para eles é a raiva, assim como são mais esperadas as ações violentas. E a gente tem visto onde isso nos trouxe: atos cada vez mais brutais praticados por meninos cada vez mais jovens.
A juíza Vanessa Cavalieri, da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro, destaca que os autores dos atos mais violentos, não só contra meninas, são jovens do topo da pirâmide social. Cavalieri explica que, sentindo-se abandonados, esses meninos são presas fáceis em comunidades da machosfera justamente porque lá eles se sentem importantes. Ela afirma que a raiz do problema está na falta de conexão e de afeto – que também vem atingindo as meninas, destaco. Só que, enquanto elas sofrem “para dentro”, chegando a se automutilarem, eles extravasam e, pior, contra elas.
Haidt também dedica um capítulo ao sofrimento dos meninos, mas avisa: é mais especulativo do que no caso das meninas. Porque sabemos menos o que ocorre com eles. Enquanto no caso do gênero feminino é mais evidente a relação entre aumento de depressão e ansiedade e a popularização das redes sociais, com uma transformação brutal concentrada entre 2010 e 2015, no caso do sexo masculino a situação é mais difusa.
A investigação de Haidt começa nas transformações laborais da década de 1970. Com a ajuda de outros pesquisadores, o psicólogo chega a algumas conclusões que, em resumo, dão conta de uma crise de masculinidade impulsionada pelas relações mediadas por telas em ambientes virtuais. Assim como as meninas, meninos também passaram a apresentar mais sintomas de depressão e ansiedade, mas sofrem com problemas de saúde mental mais variados.
Não há solução única
É urgente proteger as meninas da misoginia, mas também precisamos entender o que está acontecendo com os garotos, já que são eles os principais autores dessas violências. Não é o caso de ser condescendente com quem pratica um crime. Eles têm que ser responsabilizados. E a nova legislação sobre misoginia que avança no Congresso está aí para isso.
Mas não se enganem. Um país de tradição punitivista, com uma das maiores populações carcerárias do mundo e índices altíssimos de violência, não pode achar que vai acabar com a misoginia só por conta de uma nova lei. Se a gente não mexer nas raízes culturais do problema, não reeducar os meninos, não responsabilizar as plataformas que permitem a propagação do ódio contra as mulheres, vamos seguir enxugando gelo, encarcerando os agressores enquanto ficam pelo caminho meninas e meninos cada vez mais machucados e tristes.
Obrigada por ler até aqui! Quem apoia a Matinal tem acesso à íntegra da Tudo É Gênero. Quer saber como foi a palestra de Renato Noguera sobre masculinidades, proferida no mês passado em Porto Alegre? Apoie e leia hoje mesmo esse e outros assuntos relacionados a gênero e suas intersecções e que foram notícia nos últimos dias!