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✉️ A violência praticada por meninos

Tudo É Gênero #38

✉️ A violência praticada por meninos
Os dinossauros foram extintos aqui em casa | Foto: Arquivo pessoal

O fim de uma era

“Mãe, eu não gosto mais de dinossauros.”

Não esperava tamanha convicção do meu filho de 8 anos na hora da necessária faxina nos brinquedos. Assim, foram todos os Tiranossauros Rex, Tricerátops, Estegossauros e cia para a caixa de doação. A tranquilidade com que ele me deu a sentença facilitou a operação de limpeza, mas é sempre um choque testemunhar os marcos de passagem da infância das nossas crianças. As primeiras palavras, um dente que cai, o bichinho de pelúcia preferido atirado num canto.

Naquela mesma noite, li um pouco para Santiago na cama. Na história, um velho cachorro é chutado pelos vilões que invadem a casa de um sábio artesão. O semblante do meu filho mudou na hora, os olhos se encheram d’água.

Pausei a leitura e lembrei-o de que aquilo era uma história inventada, não era real. Ainda com o olhar cabisbaixo, ele me disse: “Qualquer coisa que acontece com um bicho, em qualquer lugar, me deixa triste”.

Na hora, lembrei do Orelha, o cachorro comunitário da Praia Brava (SC) que foi tão barbaramente agredido por um adolescente que foi necessário fazer eutanásia. A polícia concluiu o inquérito nesta semana. “Ainda bem que o Santiago não faz ideia do que aconteceu”, pensei.

Fazemos um esforço constante para tentar proteger o Santi, filho e neto de jornalistas, do noticiário. Não se trata de isolar o guri numa bolha de ilusões. Ele vê as pessoas dormindo na rua, pedindo nas sinaleiras, abisma-se com os termômetros batendo 40°C e com as enchentes levando tudo, inclusive inundando a casa do seu avô. Conversamos sobre tudo isso, medindo as palavras e filtrando as informações.

Mas como explicar para o meu filho que meninos não muito mais velhos que ele, que até pouco tempo também brincavam com seus dinossauros, são capazes de agredir e matar um cãozinho? Pior: como explicar que esse não foi um caso isolado? Adolescentes torturam e matam animais diariamente e exibem-se em grupos formados em redes como o Discord, como explica a delegada Lisandréa Salvariego, do Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad), da Polícia Civil de São Paulo. “O que motiva tudo isso é a violência pela violência. Não tem nenhum objetivo, além de ficar famoso, conhecido e ter status dentro daquele grupo”, disse Salvariego à BBC.

Integrantes desses grupos também estimulam o ódio contra meninas, muitas vezes obrigando-as a se automutilarem ou agredirem bichos de estimação. A juíza Vanessa Cavalieri, em entrevista à Rádio Novelo em março do ano passado, já havia alertado para o sadismo crescente nos crimes digitais cometidos por adolescentes. Após o caso do cachorro Orelha, ela, que é titular da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro, voltou a dar entrevistas sobre o tema. À BBC, ela destaca que “a exposição contínua de crianças e adolescentes a conteúdos extremos produz um processo de dessensibilização da violência”.

Cavalieri explica que a exaltação da violência é frequentemente associada como aspecto positivo da masculinidade nesses grupos. “O homem é visto como viril, másculo, violento, que se impõe pela força, que não tolera, que não tem sensibilidade e que não aceita não. Isso vem num pacote de normalização”, afirmou.

Pesadelo

Meu maior desafio como mãe é criar um menino longe desse padrão. Mas ainda não é hora de falar com ele sobre como os homens crescem naturalizando a violência até chegarem ao ponto de matarem mulheres porque acreditam que são seus donos. Um dia ainda teremos essa conversa.

Por ora, criamos para ele um ambiente amoroso e respeitoso, estimulando relações saudáveis, com meninos e meninas que crescem livres e o mais longe possível da internet. Inclusive proibindo-o de jogar games como Roblox e outros onde há interação entre os usuários – se você é responsável por alguma criança ou adolescente, saiba que são nesses fóruns de jogos que aliciam meninos para participar de grupos sádicos e de extrema direita em outras redes.

Enquanto a mãozinha do meu filho ainda couber entre as minhas, vou continuar embalando seu sono com histórias inventadas. Deixemos os pesadelos para os adultos.

As opiniões emitidas pela autora não expressam necessariamente a posição editorial da Matinal.

Obrigada por ler até aqui! Quem apoia a Matinal tem acesso à íntegra da Tudo É Gênero. Nesta edição, falo sobre a campanha do Pacto Nacional Brasil Contra o Feminicídio. Você sabe quem compôs a música tema da campanha, famosa na voz de Elza Soares? Eu te conto essa história e muito mais. Quer acessar agora? Apoie e leia hoje mesmo!