O fim de uma era
“Mãe, eu não gosto mais de dinossauros.”
Não esperava tamanha convicção do meu filho de 8 anos na hora da necessária faxina nos brinquedos. Assim, foram todos os Tiranossauros Rex, Tricerátops, Estegossauros e cia para a caixa de doação. A tranquilidade com que ele me deu a sentença facilitou a operação de limpeza, mas é sempre um choque testemunhar os marcos de passagem da infância das nossas crianças. As primeiras palavras, um dente que cai, o bichinho de pelúcia preferido atirado num canto.
Naquela mesma noite, li um pouco para Santiago na cama. Na história, um velho cachorro é chutado pelos vilões que invadem a casa de um sábio artesão. O semblante do meu filho mudou na hora, os olhos se encheram d’água.
Pausei a leitura e lembrei-o de que aquilo era uma história inventada, não era real. Ainda com o olhar cabisbaixo, ele me disse: “Qualquer coisa que acontece com um bicho, em qualquer lugar, me deixa triste”.
Na hora, lembrei do Orelha, o cachorro comunitário da Praia Brava (SC) que foi tão barbaramente agredido por um adolescente que foi necessário fazer eutanásia. A polícia concluiu o inquérito nesta semana. “Ainda bem que o Santiago não faz ideia do que aconteceu”, pensei.
Fazemos um esforço constante para tentar proteger o Santi, filho e neto de jornalistas, do noticiário. Não se trata de isolar o guri numa bolha de ilusões. Ele vê as pessoas dormindo na rua, pedindo nas sinaleiras, abisma-se com os termômetros batendo 40°C e com as enchentes levando tudo, inclusive inundando a casa do seu avô. Conversamos sobre tudo isso, medindo as palavras e filtrando as informações.
Mas como explicar para o meu filho que meninos não muito mais velhos que ele, que até pouco tempo também brincavam com seus dinossauros, são capazes de agredir e matar um cãozinho? Pior: como explicar que esse não foi um caso isolado? Adolescentes torturam e matam animais diariamente e exibem-se em grupos formados em redes como o Discord, como explica a delegada Lisandréa Salvariego, do Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad), da Polícia Civil de São Paulo. “O que motiva tudo isso é a violência pela violência. Não tem nenhum objetivo, além de ficar famoso, conhecido e ter status dentro daquele grupo”, disse Salvariego à BBC.
Integrantes desses grupos também estimulam o ódio contra meninas, muitas vezes obrigando-as a se automutilarem ou agredirem bichos de estimação. A juíza Vanessa Cavalieri, em entrevista à Rádio Novelo em março do ano passado, já havia alertado para o sadismo crescente nos crimes digitais cometidos por adolescentes. Após o caso do cachorro Orelha, ela, que é titular da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro, voltou a dar entrevistas sobre o tema. À BBC, ela destaca que “a exposição contínua de crianças e adolescentes a conteúdos extremos produz um processo de dessensibilização da violência”.
Cavalieri explica que a exaltação da violência é frequentemente associada como aspecto positivo da masculinidade nesses grupos. “O homem é visto como viril, másculo, violento, que se impõe pela força, que não tolera, que não tem sensibilidade e que não aceita não. Isso vem num pacote de normalização”, afirmou.
Pesadelo
Meu maior desafio como mãe é criar um menino longe desse padrão. Mas ainda não é hora de falar com ele sobre como os homens crescem naturalizando a violência até chegarem ao ponto de matarem mulheres porque acreditam que são seus donos. Um dia ainda teremos essa conversa.
Por ora, criamos para ele um ambiente amoroso e respeitoso, estimulando relações saudáveis, com meninos e meninas que crescem livres e o mais longe possível da internet. Inclusive proibindo-o de jogar games como Roblox e outros onde há interação entre os usuários – se você é responsável por alguma criança ou adolescente, saiba que são nesses fóruns de jogos que aliciam meninos para participar de grupos sádicos e de extrema direita em outras redes.
Enquanto a mãozinha do meu filho ainda couber entre as minhas, vou continuar embalando seu sono com histórias inventadas. Deixemos os pesadelos para os adultos.
Obrigada por ler até aqui! Quem apoia a Matinal tem acesso à íntegra da Tudo É Gênero. Nesta edição, falo sobre a campanha do Pacto Nacional Brasil Contra o Feminicídio. Você sabe quem compôs a música tema da campanha, famosa na voz de Elza Soares? Eu te conto essa história e muito mais. Quer acessar agora? Apoie e leia hoje mesmo!