
Agente Secreto brilha no Globo de Ouro
Wagner Moura levou a estatueta de Melhor Ator no Globo de Ouro 2026. O Agente Secreto ficou com o troféu de melhor filme em língua não inglesa. Show. Não vou entrar nessa de que um prêmio de melhor filme em língua não inglesa cheira um pouco a colonialismo, como o melhor jogador do mundo da FIFA, que sempre atua na Europa. De qualquer maneira, é gol de placa.
O Brasil comemora muito. Mudamos de patamar. Ainda mais que os filmes feitos por Hollywood custam quarenta vezes mais. Wagner Moura é o que tem de melhor, junto com Tânia Maria, no filme de Kleber Mendonça Filho. Cinéfilos e especialistas em cinema parecem preferir O Agente Secreto a Ainda estou aqui. Afinal, é um filme que fala do que mais gostam: cinema.
Fui ver como se fosse um filme sobre a ditadura militar, mas é um filme que se passa na época da ditadura militar e tem o seu ambiente afetado pelo regime autoritário. Sobre o que é mesmo o filme? Sobre a cidade de Recife, com suas mitologias e bizarrices, das lembranças do autor e diretor Kleber Mendonça Filho, parte pelos olhos do menino que cresceu nas coxias do Cinema São Luiz. Vai da lenda da “perna cabeluda” que andava pela cidade até matadores de aluguel. Tem algo de Cinema Paradiso tropical.
Possivelmente isso torne o filme mais interessante do que se fosse apenas mais uma história sobre os horrores do regime dos milicos nacionalistas em luta contra o comunismo, que não deixava de ser uma perna cabeluda assombrando o imaginário da Guerra Fria. A atmosfera da Recife dos anos 1970 é reconstituída, pelo que se pode sentir, com precisão.
Cinéfilos não dão muito bola para o que os filmes contam. Só lhes interessa mesmo como contam. Há sofisticação nesse desprezo pela intriga. Por isso, desculpam o fato de que o grande crime de O Agente Secreto é motivado pela ira de um empresário grotesco do Sudeste contra pesquisas do Nordeste sobre carro elétrico. Parece um tanto prematuro para a época.
O filósofo Renato Janine Ribeiro observou outro aspecto: num jato, tudo é explicado, não mostrado, por uma longa fala de amarração e síntese.
Aristóteles descontaria um ponto nesse quesito. Aristóteles achava que homens tinham mais costelas e dentes do que mulheres, o que não diminui a sua genialidade em tantas áreas de conhecimento, inclusive a arte.
Tudo é mais complexo do que cabe na imaginação de um censor de plantão. Wagner Moura mata a pau em sua interpretação. As primeiras cenas do filme, a do retorno a Recife no carnaval, são estupendas, com a melancolia e a estranheza de um Paris, Texas, de Wim Wenders.
Wagner consegue estar melhor do que o extraordinário Joel Edgerton no melancolicamente maravilhoso Sonhos de trem. Não é coisa pouca. O cinema brasileiro está em alta nos Estados Unidos. Acabou aquele complexo que nos fazia pensar que os argentinos faziam filmes e vinhos melhor do que nós.
Equilibramos o jogo. Se eles tiveram Borges, nós tivemos Machado de Assis. Se eles tiveram Maradona, nós tivemos Pelé. Ainda não tivemos Papa. Consta que Dom Aloisio Lorscheider recusou o “trono de Pedro”.
Enfim, eles têm Javier Milei, nós temos Lula.
O que isso tem a ver com o Globo de Ouro? Tudo, ora.