Começando pelo menos importante: só tenho alinhamento automático com o Inter. Ele joga, eu vejo, ouço, me irrito, prometo nunca mais, desligo o rádio e a tevê, mas na próxima rodada lá estarei eu de novo, cumprindo o desígnio do torcedor, que é o alinhamento automático. Que de vez em quando se compensa com as vitórias, naturalmente. Fora o Inter, não tenho essa reação com nenhuma outra instância da vida pública, família fora disso, claro.
Pulando para o último degrau: estando em território estadunidense, Flávio Bolsonaro deu declaração clara e límpida prometendo que, caso seja eleito, se alinhará automaticamente com o governo trompista, que este ano apenas chegará ao meio de seu mandato. Em sua cabeça e em seu coração, isso envolve também entregar as jazidas de terras raras do território brasileiro para a exploração de empresas orientadas pelos interesses daquele país.
Me dou conta que o prefeito Melo pode ser entendido nessa mesma toada. Tem alinhamento automático com o capital imobiliário atuante na região. Esse pessoal tem alguma necessidade nova? Quer afrouxamento da legislação de proteção ao patrimônio? Sim, senhores, é pra já. Esvaziar os órgãos de controle arduamente construídos por gerações de arquitetos, urbanistas, agentes culturais esclarecidos? Mas sem dúvida. Liberar a altura para construção de prédios novos, mesmo causando sombra assassina sobre prédios tombados que deveriam ser motivo de orgulho para a cidade e, mais que a qualquer um, ao seu prefeito? Estamos aqui para servir a vocês.
O governador Leite tem certa simpatia da minha parte porque ele, lá muito de vez em quando, destoa dessa reação. Quando esclareceu sua orientação sexual e amorosa, saiu do script dos reacionários e dos conservadores, por exemplo. Mas quando manteve o professorado do estado com um salário e uma política salarial mesquinha para fazer caixa e aparecer como bom gestor, parece certo que considerou o custo adequado pela cartilha neoliberal que quer privatizar o que for possível.
Eu tenho alinhamento automático com o presidente Lula? Não tenho. Tendo a aplaudir grande parte de suas ações, mas não é sempre. Ele defender o Maduro até o fim, por exemplo, não tem cabimento. Mas ele sentar com o Trump, cruzar as pernas e levar aquele lero de ótimo sindicalista que se sente representante e honra essa condição, falando como gente, me dá gosto.
No fim das contas, meu problema filosófico com o alinhamento automático, mais do que uma questão de solidariedade social e desejo de justiça para com os mais fracos, é uma questão de prezar a autonomia. Para decidir, para pensar em alternativas, para fugir ao ramerrão de qualquer cartilha. Ter agência, como se diz no jargão acadêmico de hoje em dia.
Luís Augusto Fischer
Nesta edição
A começar pela capital: Tina Perrone, que já apareceu na Matinal em matéria de Marina Dawas, conta como foi desenhar o local onde morou o advogado criminalista Lia Pires, antes do imóvel projetado pelo arquiteto João Antônio Monteiro Neto ser demolido. Segundo ela, ao visitar a residência, notou que “tinha o som de uma manhã quente de sábado, mas não tinha cheiro de café passado. Estava cheia, mas parecia vazia”. Em ação dedicada a preservar a memória de Porto Alegre, Perrone foi à casa acompanhada por integrantes do coletivo Urban Sketchers, e compartilhou com a Parêntese o resultado.
Olhando para o Rio Grande do Sul e suas matas, ou melhor, a vegetação campestre que compõe boa parte do estado, composta majoritariamente por espécies de pequeno porte, publicamos uma entrevista com as pesquisadoras Gabriela Meirelles, Stela Rates e Gilsane von Poser, da UFRGS. Em janeiro deste ano, elas publicaram artigo em que analisam o Pampa para além das planícies.
Por falar em natureza, o biólogo Gonçalo Ferraz retoma sua participação na Parêntese, e compartilha o longo poema narrativo Cordel do Corte Raso, que já ganhou até versão em áudio. Para entender melhor o contexto da produção, Luís Augusto Fischer entrevistou o autor.
As eleições deste ano são tema do artigo de Álvaro Magalhães. Nele, o autor analisa o que está em jogo perante a disputa.
E duas séries chegam ao fim neste final de semana: Marina Ruivo concluí os escritos sobre a trajetória do jornalista Carlos Heitor Cony, enquanto Helena Terra traz o último capítulo do folhetim A medida das coisas humanas.
Para encerrar, Arthur de Faria apresenta o segundo material deste ano do compilado sobre o rock gaúcho, e Fischer explora a produção musical de Lu Faccini, que tem show marcado em Porto Alegre na próxima sexta-feira.
Boas leituras!