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Adeus à Brigitte Bardot

Morreu a icônica atriz francesa dos anos de liberação

Adeus à Brigitte Bardot
Brigitte Bardot retratada pelo GPT

 Morreu, aos 91 anos de idade, Brigitte Bardot, a bela de Saint-Tropez e de Búzios. Nunca tive de dúvidas de que ela e Alain Delon foram o par mais bonito da história do cinema e talvez da humanidade. Na sexta-feira, queimou o Colégio Marista de Santa Maria. O ano não para nos seus últimos dias. A gente é que para e pede trégua ao destino, sem êxito. Escrevi muitas vezes sobre Brigitte Bardot:

“Houve um tempo em que eu achava Brigitte Bardot a mulher mais bonita do mundo. Nesse tempo, eu não tinha a menor noção do tempo, embora, sendo criança, considerasse que o tempo passava lentamente. Eu não sabia, mas, muito precoce, tinha pressa de envelhecer. Nesse tempo, agora distante, não havia previsão do tempo na televisão. Nem televisão. Lá em casa. A informação vinha pelo rádio, vencendo chiados e pilhas fracas. Ou pelo trem, que estava longe de ser bala. Brigitte Bardot chegava em revistas amareladas pelo tempo. Brigitte me fazia perder tempo. Eu esquecia de fazer os temas. Como podia ser tão gostosa? Estávamos em 1968. Eu tinha seis anos. Ela, 34. Algumas moças diziam que ela já estava velha e acabada”. Gostosa, não. Sublime.

Que tempos aqueles que eu nem vi passar! “Assim que aprendi a ler, decifrei um texto numa revista Fato&Fotos, se o tempo não me trai a memória, que falava do filme ’E Deus criou a mulher’, de 1956. A mulher era Brigitte Bardot. Pela primeira vez entendi as palavras do padre sobre a grandeza da obra divina. Rezei. Era um tempo vertiginoso, diziam os mais afoitos. Naquela década, o homem pisara na lua, as mulheres passaram a usar calças compridas e minissaia. A pílula anticoncepcional diminuía o tamanho das famílias, liberava o sexo da reprodução e abalava casamentos. O rock sacudia as hierarquias. Os hippies assustavam homens provectos. Tudo parecia se acelerar como nunca. O tempo passava. Quem diria que, 40 anos depois, aquele tempo seria visto quase como um tempo morto perto da hipertemporalidade de hoje? Era um tempo bom para mitos. Não se guardavam muitas imagens dos grandes feitos, o que os favorecia”.

Escrevo que Edgar Morin, com seus 104 bem vividos, buscara um tempo complexo: “A crise começou na filosofia. Mesmo permanecendo pluralista nos seus problemas e concepções, a filosofia dos tempos modernos foi animada por uma dialética que remetia um ao outro a busca de um fundamento seguro para o conhecimento e o perpétuo retorno do espectro da incerteza”. O fundamento era a beleza de Brigite Bardot.

Os tempos são bem outros nestes dias que correm para o ocaso: “Já não saímos de casa sem olhar a previsão do tempo. Nem o replay do gol. O tempo nos obceca e voltamos a sonhar com a imortalidade. Queremos viver muito tempo mesmo temendo o tédio. Numa sociedade em que cuidar do corpo e tentar prolongar artificialmente a vida se tornou um imperativo categórico, dominar o tempo é a obsessão. Como disse Brigitte Bardot, ‘eu deixo os anos sem arrependimentos, mas com a inquietação do que me trará o ano seguinte’. O tempo se foi.

 Bardot, que teve os homens aos seus pés, dedicou a vida, a partir dos 38 anos de idade, aos animais. Foi a mulher de um século.

Quando pedi ao GPT um retrato de Bardot no auge da beleza, ele recusou: seria sexy demais e violaria as suas normas de criação. Só deu o rosto.

BB ficará como um filme que se revê e parece sempre atual.

Juremir Machado da Silva

Juremir Machado da Silva

Jornalista, escritor e professor de Comunicação Social na PUCRS, publica semanalmente a Newsletter do Juremir, exclusiva para assinantes dos planos Completo e Comunidade. Contato: juremir@matinal.org

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