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Medo, humor e desejo compõem “A Mulher de Dois Esqueletos”, de Julia Dantas

Medo, humor e desejo compõem “A Mulher de Dois Esqueletos”, de Julia Dantas
Foto: Davi Boaventura

O medo do cansaço e da domesticidade. O desejo de hesitar menos e salvar a capacidade de encantamento. Outros tantos medos e desejos no turbilhão de reflexões de uma escritora que, ao se aproximar dos 40 anos, tenta entender se quer ser mãe compõem A Mulher de Dois Esqueletos (Dublinense), terceiro romance da escritora Julia Dantas, autora de Ruína y Leveza (2015) e Ela se Chama Rodolfo (2022).

Julia conta que imaginava um livro de contos. Aos poucos, a voz narrativa de uma escritora em um dos textos recentes ganhou força para costurar os capítulos, acompanhada de ponderações sobre a maternidade que dão o tom do capítulo “Quarenta”, estruturado a partir de descrições de medos e desejos, como “O medo de conviver com um homem (e um bebê), de se sujeitar ao domínio de um homem (e de um bebê), de domesticar (domesticar-se) e não encontrar outra saída que não a rebelião” e “O desejo de conhecer de outra forma tudo o que você já conhece porque acredita que, no mundo, pouco importa o que existe, importa apenas como se enxerga o que existe, e ter um filho é como ganhar emprestado um novo par de óculos”.

A escritora se surpreendeu com a quantidade de leitoras que a procuraram para dizer que acharam corajosa a forma como o livro aborda os receios relacionados à maternidade. “Embora se fale muito mais hoje em dia sobre essas questões, talvez não se fale o suficiente”, conclui a escritora. “Também ouço relatos contrastantes, como ‘que bom ler isso, também estou em dúvida’ ou ‘não queria ter filhos e achei o livro um filme de terror, agora que não quero mais mesmo’”.

O capítulo “Quarenta” termina com “O medo desejante de correr o risco”, uma espécie de elogio aos instantes em que medo e desejo estão amalgamados.

“Acho que toda dúvida passa pela convivência dessas duas posições incompatíveis. Se não tem as duas, já está decidido”, observa Julia na conversa com o repórter em um café da rua das Andradas, movimentada pela Feira do Livro. “Tu não pode ter e não ter um filho ao mesmo tempo. Quer dizer, muitos homens fazem isso, né”, pondera a escritora, com o olhar bem-humorado que também marca a personagem de A Mulher de Dois Esqueletos.

“Todos os meus livros têm algo de leveza, mas nesse eu queria ir muito pelo lado do humor, tanto pela investigação ética – do que podemos rir ou não, o que significa rir de alguma coisa –, quanto pela possibilidade de tirar o peso de uma decisão ao rir de si mesma”, diz a escritora.

“As palavras de Julia podem muito. Sua escrita é simultaneamente afiada, redonda e ritmada, conduzida por uma voz singular e madura a que se saborear e reverenciar”, afirma Natalia Timerman na orelha do livro, com uma descrição poética e precisa da narrativa costurada pela escritora porto-alegrense.

Foto: Davi Boaventura

Na visão de Julia, A Mulher de Dois Esqueletos coloca em evidência o espaço mental da protagonista. “Queria algo que não é exatamente um fluxo de consciência, mas que tenta reproduzir o tom e ritmo dos pensamentos dessa personagem”.

A mulher sem nome da trama escrutina não só a maternidade, mas também a arte, contrastando definições elevadas – “A arte é a mais sublime criação humana” – com perspectivas menos ensolaradas – “A arte não tem se sentido muito bem e não sabe se vai conseguir”.

Em outro fragmento, a narrativa sugere que o fazer artístico não está imune ao volume avassalador de informações e à dispersão de tempos hiperconectados – “A arte tenta fazer aulas de yoga online mas acaba acessando o twitter” –, um dos aspectos da contemporaneidade e da experiência de uma geração que marcam o dia a dia da personagem.

As perspectivas nebulosas impostas pela crise climática também encontram espaço na trama, em um contexto histórico marcado pela pandemia de covid-19 e pelo obscurantismo na política. “É tudo muito imprevisível. Como fazer planos pra daqui dez anos? Algum bairro vai ter afundado? Vai dar pra respirar o ar? O medo do fim do mundo é algo com o qual a nossa geração se depara de um jeito muito diferente que os nossos pais ou avós”, diz Julia.

De modo antecipatório – ou apenas em sintonia com uma emergência anterior à enchente de maio em Porto Alegre –, A Mulher de Dois Esqueletos traz uma frase que, meses depois de escrita, ganharia concretude na vida da escritora, que teve seu apartamento no bairro Menino Deus inundado: “O medo de ter que aprender a construir uma jangada usando os parcos recursos de uma escritora, a dúvida a respeito de se um lápis serve de boia salva-vidas”.

Nascida em 1985, em Porto Alegre, Julia Dantas é escritora, tradutora e doutora em Escrita Criativa pela PUCRSRuína y Leveza (2015), seu livro de estreia, foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, do Prêmio Açorianos de Criação Literária e do Prêmio AGES. Também é autora de Ela se Chama Rodolfo (2022), vencedor do Prêmio AGES e do prêmio da Academia Rio-Grandense de Letras, e foi coorganizadora, com Rodrigo Rosp, de Fake Fiction: Contos sobre um Brasil Onde Tudo Pode Ser Verdade (2020) – leia a entrevista sobre a antologia aqui.

Neste domingo (17/11), no Espaço Força e Luz, às 17h, integrando a programação da 70ª Feira do Livro de Porto Alegre, Julia conversa com as escritoras Camila Maccari e Natalia Borges Polesso.

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Ricardo Romanoff

Repórter e editor de Cultura na Matinal. Também é tradutor, com foco em artes e meio ambiente, além de trompetista de fanfarra nas horas vagas. Contato: ricardo@matinal.org

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