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Ode Fálica

Parêntese #318

Ode Fálica
Pintura de Vicente do Rego Monteiro.

Poema foi escrito na segunda metade dos anos 1960 e publicado na antologia Poemas do amor maldito, de 1968. Nos arquivos de Walmir Ayala existe uma versão datilografada em que aparecem alteradas três ou quatro palavras e duas estrofes, versão que agora é publicada de modo inédito pela Parêntese. 

*

Renato Rosa

Marchand, dicionarista e artista visual


FALUS – altíssima águia, a lava surta

no prévio Adamastor, longa sereia

de cristos oceânicos, patena

suspensa, muito mais, muito mais leve

que o leve coração da paina leve,

mais leve que o luar, muito mais leve

que a alva neve.

 

FALUS – retrocedido responsório

de palpitante agrado, atra serpente

ardida, fênix renascida

entre ninhos de carne e de açucena,

deposto onde se fecha num sacrário

o rio da carne, onde a corola aflora,

onde o pássaro se urde em terciopelo,

onde roçam plumagens contra chamas,

onde soçobram noites constelares,

onde mares são guizos contra mares,

onde leões se curvam contra pombas

e as patas têm espinhos jugulares.

 

FALUS – rocha de amor, macio arbusto

de sombra e de salsugem, maresia

dourada de pelagem mais que seda,

carne febril, rocio que sacia

longas maturações de noite abril;

falus secreto, proibida ponte

de toda a glória, rábida serpente

dona de altos desertos mais que infindos.

Falus, cetro, cariátide sofrida

para suporte de altos universos,

espírito dos próximos juízos,

caminho de outros lázaros voltados,

grinalda e louro, búfalo dormido

e irascível leopardo acometido.