Projeto Ar, Água e Terra une restauração ambiental e etnodesenvolvimento no Rio Grande do Sul, resultando em 3.870 tCO₂e removidas da atmosfera em um ano, e comprovando a eficácia do bem viver Guarani - Nhandereko
O Projeto Ar, Água e Terra , realizado pelo Instituto de Estudos Culturais e Ambientais (IECAM) e patrocinado pela Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental, consolidou-se como um modelo notável de etnodesenvolvimento, recuperação e conservação ambiental no Sul do Brasil. Ativo desde 2012 e atualmente em sua 4ª fase, o projeto atua em parceria com dez aldeias Guarani em dez municípios do Estado, abrangendo uma área de mais de três mil hectares nos biomas Pampa e Mata Atlântica. Sua metodologia é intrinsecamente participativa, fundamentada no Nhandereko (modo de ser e viver Guarani), garantindo o protagonismo indígena na execução e gestão das ações.
O compromisso do projeto com a sustentabilidade é mensurado, entre outros indicadores, por seu rigoroso Inventário de Emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE), que segue normas internacionais como o GHG Protocol e a ISO 14064-1 e 14064-2. Os resultados demonstram um impacto positivo crescente: o projeto já havia evitado a emissão de 7.665,8 tCO₂e nas fases anteriores e, apenas no primeiro ano da 4ª fase (2024), comprovou um saldo positivo de redução líquida total de 3.870 tCO₂e. Este feito é alcançado por meio da restauração ambiental nas terras indígenas, que compensam as emissões geradas pelas atividades do projeto. O potencial de longo prazo é ainda mais expressivo, com a conservação das florestas, podendo somar mais de 42.096 tCO₂e reduzidas em até 10 anos. Ao longo de sua história, o projeto já manejou e plantou mais de 130 espécies e recuperou e cerca de 25 hectares de áreas degradadas, plantando mais de 50 mil mudas. A coordenadora do projeto e presidente do IECAM, Denise Wolf, destaca que o Inventário funciona como uma “bússola”, orientando estratégias de mitigação e conferindo credibilidade ao trabalho.
O trabalho do Projeto Ar, Água e Terra se sustenta em uma abordagem de quatro pilares de ação, integrando de forma única o conhecimento científico com o saber tradicional. Isso inclui Ações de Reconversão e Recuperação Ambiental - viveirismo e plantio em agroflorestas e com espécies nativas, Foco na Troca de Saberes e Técnicas – rodas de conversa, encontros, Gestão Sustentável do Território (com a produção de etnomapas e mapas de uso da terra), e o Protagonismo Indígena, que prioriza a escuta e as boas palavras, respeitando o modo de ser Guarani. Essa abordagem se reflete em ações concretas que fortalecem a autonomia e a cultura. Por exemplo, a agricultura tradicional kokué (roça Guarani) é resgatada e impulsionada, apoiada pela cartilha Ma'etỹ Regua, que documenta o calendário de plantio. Já a celebração da cultura se manifesta no ritual do Nhemongaray (nominação, “batismo”) e do Carijo/Karijo (preparo da erva-mate para o chimarrão), que reforça a identidade e a conexão com a Mãe Terra.
A autonomia se estende à infraestrutura: a construção de novos viveiros-estufas e de quiosques (Ajaká Ro, casas de artesanato) é planejada com base na orientação solar e cultural Guarani, e a instalação de sistemas fotovoltaicos inovadores em aldeias como a Teko’a Anhetenguá e Teko’a Yvyty Porã garante o acesso à comunicação e à energia limpa em um viveiro e em uma aldeia isolada. O trabalho do IECAM, que atua com os Guarani desde 1995, é marcado pelo respeito e pela valorização do conhecimento ancestral. O Instituto já foi reconhecido pelo Ministério da Cultura com o Selo Cultura Viva por sua atuação com os povos Guarani no Rio Grande do Sul, além de ter participado da COP 30, da da Rio+20 e da Rio/Eco 92.
Assim, com mais de 300 indígenas envolvidos e mais de 100 ações de educação ambiental, o projeto se dedica a levar a voz e as soluções baseadas nos territórios e na natureza para o debate global. A iniciativa investe também na troca de saberes e na capacitação de jovens Guarani como guias locais em roteiros agroflorestais e etnoturismo nas aldeias e na conscientização de visitantes, por meio de um folder de orientação que educa o público sobre a convivência respeitosa e visitas às Teko’a Guarani.
O Projeto Ar, Água e Terra é, portanto, uma iniciativa de memória e vanguarda que constrói, de forma intercultural e interdisciplinar, um futuro mais justo e sustentável, unindo tradição e ciência.
RESULTADOS ALCANÇADOS ATÉ O INÍCIO DA 4ª FASE DO PROJETO
- Conservação de mais de 3 mil hectares dos biomas Pampa e Mata Atlântica;
- Cultivo de mais de 20 mil mudas nos viveiros e estufas;
- Plantio de mais de 30 mil mudas de mais de 100 espécies nativas da região sul do Brasil;
- Redução da emissão de Gases de Efeito Estufa (GEE) de 7.665,8 tCO2-e associadas à área de recuperação e proteção/conservação ambiental;
- Mais de 100 atividades, como oficinas, reuniões, encontros etc.;
- Cadastro de participantes indígenas com a sistematização de dados;
- Etnomapeamento e mapeamento — produção de etnomapas e mapas de uso da terra.