O Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MACRS), que há 33 anos está sediado na Casa de Cultura Mario Quintana (CCMQ), passa a ter um local próprio no bairro Floresta. A inauguração oficial do espaço ocorre nesta quinta-feira (14/8), em evento para convidados e autoridades. A visitação pública inicia no dia 15 de agosto, apresentando uma instalação do artista Nuno Ramos que dialoga com a enchente de abril e maio de 2024.
Localizado na rua Comendador Azevedo, 256, o MACRS 4D ocupa um galpão industrial de 500 m² cedido pelo governo estadual, onde funcionava um depósito da Secretaria de Segurança Pública (SSP). Serão cerca de 300 m² destinados a exposições, além de um pátio com mais de 1.700 m² que acolherá um jardim de esculturas, um café, um espelho d’água e áreas voltadas a programas educativos. Dois bondes da Carris doados pela SSP à Secretaria de Estado da Cultura (Sedac), responsável pelo MACRS, estão sendo reformados e adaptados para receberem atividades formativas.
Ao longo de décadas, iniciativas anteriores buscaram estabelecer uma sede própria do museu, inaugurado em 1992, em locais como o Cais Mauá e o prédio da antiga loja Mesbla, na esquina das ruas Coronel Vicente e Voluntários da Pátria, mas acabaram não sendo concretizadas. O espaço que será inaugurado nesta semana foi viabilizado com investimentos de mais de R$ 5 milhões do governo estadual. A Associação de Amigos do MACRS (AAMACRS) financiou o projeto arquitetônico do museu e parte do mobiliário – e captará recursos, via mecanismos de incentivo, para viabilizar a programação do museu.

As obras do MACRS 4D foram interrompidas em maio de 2024, quando o imóvel foi atingido pela cheia do Guaíba. A região foi uma das mais impactadas pelo avanço da água. Segundo a diretora do museu, Adriana Boff, para mitigar riscos de novas inundações, o piso na entrada do galpão, junto à rua Comendador Azevedo, foi elevado em cerca de 60 centímetros. Já o foyer terá mobiliário de aço e revestimentos que permitem trocas de uma única lâmina, reduzindo custos no caso de evento extremo similar ao do ano passado. “Também vamos investir em um projeto de gestão de riscos para termos um protocolo no caso de nova elevação do rio”, diz Boff. O acervo do museu permanece na CCMQ, que seguirá promovendo exposições e atividades do MACRS, em paralelo à programação no 4º Distrito.
Conexão com a comunidade

Para a nova casa no bairro Floresta, segundo Boff, um dos eixos centrais será o diálogo com o entorno, que inclui espaços culturais, como o Vila Flores, e o Loteamento Santa Terezinha, também conhecido como Vila dos Papeleiros – onde, em julho, carrinhos de catadores de resíduos e galpões comunitários foram destruídos por operações de órgãos municipais, como mostrou reportagem da Matinal.
“O papel social do museu tem sido um debate crucial na contemporaneidade, especialmente desde os anos 1970, quando a transição de um modelo focado no objeto para uma abordagem que prioriza a interação com a comunidade ganhou força. O conceito de museu integral, que ressalta o papel social dessas instituições, será um dos alicerces para as reflexões e ações do MACRS no 4º Distrito”, explica Boff, que destaca também a preservação da fachada do galpão, mantendo a tipologia do bairro, como forma de dialogar com o entorno.
A instituição vem promovendo atividades na Vila dos Papeleiros como o LAB. Presença, inserindo jovens em processos curatoriais, educativos e artísticos. Em 2024, o museu realizou o seminário “MACRS e 4° Distrito: perspectivas e articulações para um museu no território”. Ao longo dos próximos meses, o MACRS 4D convidará escolas da região para iniciarem as atividades educativas do espaço.
“É importante furar bolhas e buscar uma transversalidade das ações”, defende Boff, que prevê um jardim ocupado por diversas linguagens artísticas, como música e projeções de filmes, para além das artes visuais. A programação das exposições do MACRS 4D será definida por um comitê curatorial. Na visão da diretora da instituição, é importante observar os perfis de público e os usos do espaço em seus primeiros meses de operação para construir a identidade da sede.
Obra de Nuno Ramos dialoga com cheia do Guaíba

A instalação Três Casas, que marca o início das atividades do MACRS 4D, nasce de diálogos de Nuno Ramos, que vive em São Paulo, com o curador da mostra, André Severo, e a diretora do museu. Impactado com a enchente do ano passado, o artista propôs abordar o evento climático na exposição de inauguração e visitou a Região Metropolitana de Porto Alegre nas semanas seguintes à cheia do Guaíba. “O impacto que tive com o que vi nesse momento foi profundo, epidérmico”, define Ramos, um dos principais nomes da arte contemporânea brasileira.
Ao longo de visitas à Vila dos Papeleiros, à região das Ilhas, ao bairro Sarandi e cidades da Grande Porto Alegre em 2024, a destruição das casas sensibilizou Ramos. O cenário remeteu à instalação Ai, Pareciam Eternas (3 Lamas), que ele exibiu uma única vez, em 2012. Assim nasceu a ideia de recriar a obra em Porto Alegre.
“Pensamos que o trabalho para o MACRS já estava pronto. São três casas da minha vida que eu enterrei. Por não terem sido feitas exatamente para essa exposição, criam uma tensão interessante entre a dimensão pública e a pessoal, entre experiências coletivas e particulares”, disse o artista, em conversa com a Matinal durante a montagem da instalação.
Uma das referências da primeira versão da obra, que ocupou uma galeria em Belo Horizonte, é o poema Morte das Casas de Ouro Preto, em que Carlos Drummond de Andrade escreve:
Sobre o tempo, sobre a taipa,
a chuva escorre. As paredes
que viram morrer os homens,
que viram fugir o ouro,
que viram finar-se o reino,
que viram, reviram, viram,
já não veem. Também morrem.
Recriar um trabalho, com alterações mínimas de materiais em relação à primeira exibição, foi a forma que Ramos encontrou para abordar a dimensão da catástrofe com a qual se deparou. Ao longo do processo de pesquisa, o artista coletou áudios de pessoas que tiveram suas casas inundadas pela enchente, mas considerou que o uso dos depoimentos e outros possíveis procedimentos – como expor detritos e entulhos da cheia – seriam inadequados em um contexto de experiências traumáticas tão recentes.
“Por mais benigno que fosse o trabalho, seria muito violento fazer as pessoas reviverem aquela situação. Senti que estava numa região estranhamente preciosa para quem tinha vivido aquela tragédia”, explica Ramos.
“A esperança aqui é ter conseguido – pelo afastamento e foco individual que, por meio da instituição, toca uma dimensão pública – acessar a tragédia de outro jeito”, completa o artista, que é formado em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) e desenvolve trabalhos artísticos em diferentes linguagens, como pintura, desenho, escultura, literatura e canção.
Aludindo à intimidade do artista e à memória coletiva da cidade, a instalação ocupa toda a sala expositiva do MACRS 4D com três réplicas em tamanho real de residências onde Ramos viveu desde a infância. Recriadas com o uso de materiais como mármore, granito e areia, as Três Casas aparecem submersas em lama, produzida em São Paulo, nas cores branca, preta e marrom.

“Inaugurar a nova sede do MACRS no 4º Distrito é também, para mim, uma forma de agradecer à cidade, às instituições e às pessoas que me permitiram realizar, com intensidade e total liberdade, até obras mais difíceis, sem retorno comercial ou de público garantidos. Estou com 65 anos, e sinto que essa exposição é também uma homenagem à minha própria história com Porto Alegre”, afirma Ramos, recordando a exibição de outras obras e performances na cidade, como 111 (1992), Ensaio sobre a Dádiva (2014), 24 Horas (2017), Cinema ao Vivo (2019) e Dito e Feito (2021).
“É difícil segurar a vontade de fazer um trabalho novo, especialmente no caso de um artista como o Nuno. Mas sentimos que havia uma possibilidade de atualização e ressonância”, diz Severo. Na visão do curador, a obra reconstruída em Porto Alegre convida ao diálogo, à medida que “as casas imersas deixam de ser apenas as do artista e tornam-se as de todos: as que vimos nas imagens da catástrofe, as que conhecemos ou perdemos, as que carregamos em nós como promessa ou ausência”.

Na conversa da Matinal com o curador e o artista, outras obras envolvendo casas em situações de fragilidade e ruptura vêm à tona, como o projeto Splitting (1974), de Gordon Matta-Clark – no qual o artista estadunidense serrava casas ao meio –, e o filme Steamboat Bill, Jr. (1928), do diretor e ator norte-americano Buster Keaton – em que seu personagem, protegido pelo marco de uma porta, escapa ileso ao desabamento de uma fachada. Décadas mais tarde, o artista e cineasta britânico Steve McQueen prestaria homenagem à cena icônica do cinema mudo no vídeo Deadpan (1997).
“O lar, lugar arquetípico da proteção, da identidade e da permanência, é confrontado com sua ruína iminente. As casas, moldadas a partir das lembranças do próprio artista, deixam de ser apenas reminiscências pessoais para se tornarem arquétipos universais da fragilidade e do desamparo”, observa Severo no texto curatorial da mostra, que segue em cartaz até 11 de janeiro de 2026.
Onde: MACRS 4D (Comendador Azevedo, nº 256 – Floresta – Porto Alegre)
Inauguração: 14 de agosto de 2025, às 14h – evento para convidados
Período expositivo de “Três Casas”: de 15 de agosto de 2025 a 11 de janeiro de 2026
Visitação: terça a sexta, das 12h às 18h; sábado e domingo, das 10h às 18h