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✉️ Amelinha presente

Tudo É Gênero #54

✉️ Amelinha presente
Amelinha representa a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos em coletiva de imprensa na UNIFESP, em 2025 | Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil


Honremos a memória de Amelinha Teles

É difícil precisar a data em que uma mulher torna-se feminista. Não para Amelinha Teles. A jornalista e ativista, que faleceu na última quarta-feira, aos 81 anos, sabia exatamente quando a perspectiva de gênero entrou na sua pauta: 19 de março de 1964. Naquele dia, ocorria a Marcha da Família com Deus pela Liberdade.

Filiada ao Partido Comunista desde a adolescência, Amelinha surpreendeu-se ao saber que, no meio da turma que marchava pelas ruas, havia muitas mulheres periféricas. Foi ali que ela se deu conta de que não adiantava olhar o mundo apenas com a lente da luta de classes, era preciso abraçar o feminismo.

Maria Amélia de Almeida Teles é um dos grandes nomes da luta pelos direitos das mulheres no Brasil e pela responsabilização das violações praticadas pelos militares durante a ditadura. Presa em 1972, foi espancada e estuprada. No DOI-CODI de São Paulo, também testemunhou outras pessoas detidas serem torturadas e mortas. Seus filhos, ainda crianças, foram sequestrados, e sua irmã, na época grávida, levada pela polícia – o bebê nasceu na prisão.

Quando saiu da cadeia, Amelinha fundou o Jornal Brasil Mulher, instrumento importante da luta feminista e pela anistia. Sua participação na Constituinte foi fundamental para garantir os direitos das crianças e das mulheres, com as pautas das creches e da licença-paternidade.

O Brasil, especialmente as mulheres, devem muito a ela. 

Mais tarde, já nos anos 2000, atuou na Comissão da Verdade, onde defendeu a perspectiva de gênero nas investigações. A quem a questionava por falar das mulheres, já que homens também haviam sidos torturados e mortos, explicava que a tortura era diferente – o que fica bem óbvio quando falamos de estupros cometidos por militares e abortamentos provocados pela violência praticada contra gestantes detidas.

“A ditadura usa gênero como estratégia. É arma de dominação o tempo todo”, disse a ativista em entrevista ao podcast Escute as Mais Velhas, conduzido por Sueli Carneiro e Neca Setúbal. O episódio foi ao ar em abril deste ano.

Após a morte da ativista, Dilma Rousseff homenageou a companheira de lutas nas redes sociais. “Amelinha Teles deixa um exemplo imenso de coragem, coerência e dignidade. Jamais abriu mão de seus princípios, jamais abandonou suas lutas e nunca permitiu que o silêncio encobrisse as violências do passado”, escreveu a ex-presidenta.

As duas sofreram na pele o terror da ditadura nas celas do DOI-CODI. O torturador de Amelinha e de Dilma é nome conhecido dos brasileiros. O dia em que foi exaltado no meio do Congresso Nacional deveria ter parado o Brasil. Mas fizeram de conta que não era nada demais – e o então deputado federal lambe-botas de torturador seria eleito presidente do país dois anos depois.

Carlos Alberto Brilhante Ustra foi o nome aclamado por Jair Bolsonaro naquela sessão de 17 de abril de 2016, que deu início ao golpe contra Dilma. Ustra foi processado na esfera cível pela família Teles em 2005. Três anos depois, foi condenado e declarado torturador pela Justiça, o primeiro a ser assim reconhecido no Brasil. Morto em 2015, o coronel nunca foi condenado criminalmente nem preso.

Ustras e Bolsonaros querem nosso voto em 2026, mas a herança de Amelinha há de ser maior. Honremos sua luta e sua memória.

As opiniões emitidas pela autora não expressam necessariamente a posição editorial da Matinal.

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