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✉️ Aquelas manhãs de verão

Lembro com melancolia daquele lugar que a maioria chamava de fim de mundo e eu batizava de paraíso

✉️ Aquelas manhãs de verão
Campos daquelas manhãs luminosas. Foto: Juremir Machado da Silva

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Aquelas manhãs de verão

Me lembro com melancolia, por essa nostalgia que me caracteriza desde jovem adulto – mesmo quando não quero ou não posso, sem mesmo a ajuda de um biscoito, tão necessário à velha senhora personagem de Marcel Proust –, daquelas manhãs luminosas, entre 7 horas e 9 horas, naquele lugar que a maioria chamava de fim de mundo e eu batizava de paraíso.

Às vezes, chovia um pouco, por não muito tempo, uma chuva mansa e generosa. Os campos se coalhavam de poças de água na várzea e a gente corria para tomar banhos matinais em sangas cristalinas e rasas que logo deixaram de existir. Jamais vi novamente águas tão limpas, puras e mornas.

A restrição imposta pela chuva, que nos obrigava a contemplá-la de um galpão coberto de capim santa-fé, era compensada por uma explosão de cores, aromas, pios, alaridos, contentamentos, bandos de pássaros voando, formigas em fila avançando com folhas verdes colhidas, cortadas e carregadas com vivacidade, cavalos que relinchavam ou retouçavam junto às cercas lindeiras, reconhecendo companheiros de outro lado na mesma excitação.

A vida não parecia retomar o seu curso depois de uma interrupção para regar o jardim, mas explodia, rebentava, exibia-se, fervilhava, acontecia.

Eu me deixava tomar por uma alegria infantil sem dimensão que não cabia no meu peito e no meu imaginário tão modesto. Tudo ficava ainda tão mais bonito que me parecia escapar ao tamanho dos meus olhos já míopes. Eu conseguia me encantar até com o fervilhar de um cupinzeiro cortado ao meio com um golpe certeiro de facão para servir de alimento aos peruzinhos.

O que mais me impressionava, além dos sons, dos cantos, da musicalidade da natureza, das cores vivas das frutas, da agitação dos seres vivos, dos menores aos maiores, salvo a velha coruja que se mantinha enigmática sobre o seu mourão de cerca habitual, era a pureza, a suavidade, a leveza do ar. Respirar era como se inebriar com um sopro de alegria que vinha se infiltrar nas narinas de cada um, principalmente nas minhas.

Mais bonito ainda era quando podíamos caminhar com uma pessoa mais velha de acompanhante e guia até a beira da mata nativa, que para nós era apenas o mato, e andar por ali, ao longo daquela mancha verde que serpenteava por uma légua, descobrindo aguadas, pequenos oásis de areias brancas bem finas, salpicadas de conchas, bichos diversos, rápidos, lentos, assustadiços, assustadores, de lagartos e pássaros de cores intensas que faziam ruflar as suas asas repentinamente, esperando a magia bem mais difícil de alguns tatus, mulitas, preás, veadinhos campeiros, capinchos, lobos-guará, cachorros-do-mato ou, mais prováveis e disponíveis, jacus sempre prontos a emitir o mais belo e triste canto da campanha.

Se havia medo de cobras, as recompensas eram tantas que valia rezar por uma nova chuva daquelas antes do final das férias escolares.

Eu me lembro daqueles dias, que já deviam estar arquivados no mais distante álbum afetivo do meu cérebro, com tanta frequência que me pergunto: por que mesmo? A resposta é óbvia: foram alguns dos melhores dias da minha vida. A felicidade era encher os pulmões de ar, deixar a brisa lamber o rosto da gente e correr de braços abertos. Esse lugar tem nome: Florentina. Era onde ficava a casa de meus tios, Ofir e Sueli, e dos meus primos, Carlos Henrique e Mari, tendo sido antes a chácara dos meus avós Túlio e Nema. Todos partiram, menos a Mari. Vida longa e feliz a ela.

Terá as mesmas lembranças?

Comentei com uma IA. Ela me disse: “Coisa de velho”.