Das Missões ao Vaticano hoje
No dia 5 de maio, o Vaticano publicou um documento em que reconhece o sofrimento enfrentado por pessoas LGBTQIA+ dentro da Igreja Católica. O texto reúne depoimentos de fiéis gays, critica as terapias de conversão – conhecidas como “cura gay” – e admite que discursos religiosos contribuíram para sentimentos de “solidão, angústia e estigma”.
Em um dos relatos, segundo reportagem da Folha de S.Paulo, um homem gay que vive em Portugal diz ter passado por processos de terapias de conversão e que chegou a ser aconselhado por um diretor espiritual a se casar com uma mulher para “encontrar paz”.
O documento anunciado pelo Papa Leão XVI não altera a doutrina católica em relação ao casamento religioso entre pessoas do mesmo gênero, mas é histórico porque representa um movimento importante na direção de uma igreja mais inclusiva.
Um mea culpa que chega com pelo menos 400 anos de atraso por esses pagos.
A heterossexualização compulsória denunciada nesta carta de 2026 já era praticada pelos jesuítas responsáveis pelas reduções instauradas no noroeste do Rio Grande do Sul e regiões da Argentina e Paraguai no século 17. Um documento de 1661, de autoria de Simón de Ojeda, provincial da Companhia de Jesus que atuou no Paraguai, conta o caso de um jovem que por anos foi aconselhado pelos padres a abandonar as relações com outros homens e casar-se com uma mulher. A “cura gay” se daria pelo matrimônio.
O tal moço, que estava “metido até as sobrancelhas nos abomináveis e nefandos vícios”, se recusava a atender a recomendação. Até que um dia, após ouvir um sermão assustador sobre os castigos de deus em Sodoma, é convencido e acaba casando com uma mulher. Segundo os registros da época, ele nunca mais pecou.
O episódio é contado por Jean Tiago Baptista, pesquisador da Universidade Federal do Sergipe, e Tony Boita, gerente de Conteúdo do Museu da Diversidade Sexual, em São Paulo, que assinam um artigo publicado na Revista Nature em 2024. Historiador, Baptista investigou mais de 1,2 mil documentos de jesuítas a partir da técnica da paleografia, que decifra manuscritos antigos. Para ele, o atual cenário de violência de gênero e sexual na América do Sul tem origem no processo colonial, e não nas culturas indígenas.
A chegada dos jesuítas impôs aos povos originários uma visão heteronormativa do mundo, perseguindo pessoas LGBTQIA+ e introduzindo outra violência que, segundo Baptista, inexistia como prática entre os indígenas: pais passaram a estar autorizados a espancar em praça pública filhos que apresentassem comportamentos considerados desviantes.
O maior pecado que alguém poderia cometer nas reduções jesuíticas era o homicídio, com pena de prisão perpétua. O segundo crime mais punido era a homossexualidade. Como negar a força de uma determinação dessas? Somos uma sociedade que há 400 anos aponta o dedo para gays, lésbicas e pessoas trans para dizer que elas estão erradas, não podem ser quem são, devem ser punidas e não merecem o céu, seja lá o que for esse paraíso onde estão autorizados a entrar justamente quem pratica essa violência contra seus semelhantes.
As mulheres nas Missões
Também as mulheres sofreram nas reduções jesuíticas-guaranis, que neste mês de maio vêm sendo rememoradas por ocasião dos 400 anos da chegada da Companhia de Jesus na América do Sul. Segundo Baptista, as mulheres indígenas, que antes dos jesuítas faziam parte de coletivos femininos e de fóruns decisórios em suas comunidades, perdem tudo, não podem ter mais propriedade de nada e passam a ser sujeitos subalternos ao mundo colonial. Também há registros da época de punições que deveriam servir de exemplo para mulheres que traíam seus maridos.

No quadro acima, apresentado por Baptista em um ciclo de palestras promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos no mês de abril, os pesquisadores demonstram como estavam organizadas espacialmente as reduções e onde a presença das mulheres estava autorizada. Para o pesquisador, uma leitura queer indígena dessa planta baixa das Missões permite enxergar que o retrato da retração do espaço feminino e da exclusão das pessoas sexualmente dissidentes é capaz de ilustrar ainda hoje o que acontece na nossa sociedade.
As Missões foram uma experiência complexa. Há pesquisadores que destacam a resistência por parte dos guaranis – inclusive das mulheres –, outros falam da aceitação da catequese, às vezes em troca de novos aprendizados.
Nada disso se apaga. Mas não podemos mais olhar para as Ruínas de São Miguel e não enxergar as raízes da violência com que grupos minoritários ainda são tratados hoje.
Obrigada por ler até aqui! Quem apoia a Matinal tem acesso à íntegra da Tudo É Gênero, com outras análises, dicas de leituras e filmes e uma curadoria de notícias sobre temas relacionadas a gênero e suas intersecções. Quer acessar agora? Apoie e leia hoje mesmo!