
Atmosfera da Bahia
Quatro dias em Salvador. Eu só faço perguntas já feitas: o que a Bahia tem? O que a baiana tem? O que o baiano tem? Algo eles têm. Afinal, a Bahia nunca deixa de produzir o seu encantamento cantado em prosa e verso.
Até comigo que praticamente aboli a viagem de turismo. Só passeio um pouco nas sobras do trabalho. Sou daqueles que precisam de pretexto. De Salvador, troquei mensagens com meu amigo francês Olivier Cathus, que foi embora da cidade no dia em que cheguei lá. Olivier, casado com uma baiana, comentava em tom de pergunta retórica sobre a mágica de Salvador da Bahia.
Tem ou não tem? Tem. Não é clichê. É e não é. Sendo. Salvador tem uma atmosfera, essa coisa que a gente sente, mas não mede nem captura. Ele contou também que a seleção francesa de futebol está sendo chamada de “les méchants”. Malvadões. Vamos ver com a Espanha. Isso, porém, é outra conversa. Salvador tem essa magia: reapaixona a cada vez que se vai lá.
Minha primeira vez em Salvador foi em 1983. Eu tinha 21 anos, cabelos longos, utopias para dar e vender e alma libertária. De lá para cá, fui muitas vezes. A cada ida, visito os lugares incontornáveis como se os visse pela primeira vez. Eles correspondem revelando charmes novos, ou seja, coisas tão antigas quanto a cidade.
É possível não se mobilizar com o som da percussão nas ladeiras do Pelourinho? Dá para não sentir orgulho pela literatura de Jorge Amado revendo a sua casa do Rio Vermelho? Que imenso escritor. Não são belas as figuras dos orixás no Tororó? Pode-se ir a Salvador e não passar na basílica de Nosso Senhor do Bom Fim em busca de uma proteção espiritual?
Como não comer uma moqueca no Casa de Teresa? Um peixe vermelho no Dona Mariquita? Uma maniçoba com colegas da UFBA no restaurante Recôncavo?
Cheguei a pensar em pedir asilo em Salvador. Justificativa: perseguido pelo frio do Rio Grande do Sul. Definitivamente o frio me cai mal. Quanto mais o tempo passa, mais fico friorento e louco pelo calor.
Eu moraria com gosto em Ondina ou Rio Vermelho. Em Salvador, a arte de Caribé encastela-se nos morros. Os personagens de Jorge Amado andam pela cidade. A tal magia, porém, parece estar na relação entre os seus habitantes e a natureza, como se a paisagem determinasse o ritmo da vida.
Sei que não digo qualquer coisa nova. A originalidade é um mito antigo. Apenas esboço o deslumbramento que Salvador sempre me provoca.
Quando vamos a praias baianas, como neste ano em Itacimirim, a 50 quilômetros de Salvador, nem entramos na cidade para não perder o foco.
Salvador é como um bicho esparramado na beira do mar. Havia previsão de ondas na Barra. Até o meio-dia a maré subiria, engolindo boa parte da estreita faixa de areia. Achei que o sol não seria generoso naquele dia e que a praia ficaria deserta cedo. Ao final da tarde, ainda estava cheia.
O sol não se fez de rogado, as ondas se controlaram, o sábado impôs a sua lei: dia de jogar, brincar, beber e só ir embora ao entardecer.
Preciso de asilo urgente. Pelo menos até novembro.
Sob a proteção dos espíritos de Jorge Amado e Dorival Caymmi.
A Bahia só não é mágica na desigualdade: a pobreza é majoritariamente dos negros; o judiciário, dos brancos. Segue o Brasil como qualquer Estado.