
Bethânia, 80 anos
Eu tinha 15 anos de idade. Estava no primeiro ano do curso de magistério no colégio das freiras, em Santana do Livramento. Uma colega, cujo nome já não me vem à memória, era igualzinha à cantora Maria Bethânia. Mas eu não conhecia Maria Bethânia. Então ela trouxe uma fita cassete e um enorme gravador para a gente escutar a música da baiana no intervalo.
Havia também uma revista, que podia ser Manchete ou Fatos & Fotos, com uma reportagem sobre a cantora. Na foto da matéria, ela se parecia muito com minha amiga de aula. Minha coleguinha se vestia como Maria Bethânia.
Ouvimos o álbum Pássaro da manhã. Ficou um silêncio por alguns instantes. Nenhum professor conseguia nos fazer ficar tão quietos. Eram músicas que fariam história: Tigresa, Teresinha, Começaria tudo outra vez, À flor da pele, Promessa, Gente, Cabocla Jurema, etc.
Esses nomes todos eu pesquisei para lembrar. Na minha cabeça ficaram Tigresa e Teresinha. Mas ficou especialmente a voz de Bethânia.
Quando vim morar em Porto Alegre, primeiro no bairro Navegantes, depois no Sarandi e no Jardim Ipiranga, meu primo Eleú, de saudosa memória, tinha uma fita dela. Era o disco Álibi, de 1978, com as músicas Ronda, Explode coração, Álibi e O meu amor. Meus primos sumiam por dois ou três dias. Eu passava os fins de semana sozinho, meio perdido no mundo, escutando Maria Bethânia, Gal Costa e Milton Nascimento. Era tudo.
A voz de Bethânia me devolvia aos meus 15 anos em minha cidade natal. Meu coração explodia de saudade, eu rondava a cidade em imaginação, sem um centavo no bolso para sair de casa e ainda sem amigos com quem dividir minha aflição. Ouvi-la me fazia pensar que havia algo de bom.
Gosto de pensar no intrincado mecanismo da memória: como foi que esqueci o nome da minha ousada colega, aquela que nos fazia deixar de ser crianças e nos puxava para algo que nos parecia mágico, a cultura brasileira? Onde ela andará? Terá visto muitos shows de Bethânia ao longo da vida?
Quando me separei dos meus primos, que foram morar em Alvorada, e andei rolando por diversos lugares de Porto Alegre, numa vida agitada de estudante de história e jornalismo, levei a fita de Bethânia comigo. Mas a perdi numa das casas onde algum amigo me acolhia para uma noite de sono.
Uma artista me contou que Maria Bethânia num ensaio de seus shows é intragável, podendo maltratar as pessoas da sua equipe. Fiquei perplexo.
Dizem que grandes artistas podem ser, em geral, muito difíceis. Bethânia para mim permanece associada à imagem da minha paradoxalmente doce e rebelde colega de escola. Escavando em minha memória, lembro de poucos nomes daquela turma (não completei o curso de Magistério, fui buscar parceria de meninos no curso de Oficial de Farmácia): Elaine e Rosemery, por quem meu coração se dividia, Maria Cristina e talvez o Norberto.
Por que o nome de Maria Cristina ficou inteiro na minha memória? Ela era muito gentil e ótima aluna. Era rica. Eu era pobre. A luta de classes, sem que tivéssemos qualquer consciência disso, exercia o seu papel moderador. Eram mundos tão distintos. Lembro de ter-lhe falado em “desvaneios”. Ela me corrigiu com um sorriso que me fez corar de vergonha.
Minha vocação de poeta quase naufragou ali. Maria Bethânia agora é octogenária. Ficamos velhos. Por favor, coração, nada de explodir. Calma.