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✉️ Corpo e solidão de um presidente

Newsletter do Juremir #214


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Corpo e solidão de um presidente

Meu amigo Leandro Minozzo me presenteou com um link para passar o tempo durante a recuperação de uma prostatite. Era o filme A graça, de Paolo Sorrentino, que trata da solidão de um presidente italiano na reta final do seu governo. Ele tem de tomar três decisões importantes: conceder indultos a uma mulher que matou o marido e a um homem que assassinou a esposa com Alzheimer, e sancionar ou não a lei da eutanásia – cara à sua filha jurista, conselheira, assessora, progressista e também solitária.

O filme veio coincidir com a leitura do belo livro do meu amigo Denis Fleurdorge, professor na Universidade Paul Valéry de Montpellier, Le corps du président de la republique: une anthropologie politique (O corpo do presidente da república: uma antropologia política). Amparado em excelente bibliografia, a começar pelo clássico de Ernst Kantorivicz, Os dois corpos do rei, Denis analisa como deve se apresentar o corpo de um presidente numa sociedade democrática contemporânea. Se o tempo do fausto real ficou para trás, uma contenção ainda baliza a aparência do presidente: cabelos muito curtos, barba sempre bem-feita, várias vezes, certos dias, ao longo da jornada, terno bem ajustado, unhas tratadas, cabeça e mãos em evidência.

O corpo do presidente corresponde ao corpo do personagem interpretado por Toni Servillo no filme de Sorrentino: um físico contido. Nestes tempos modernos, presidentes podem aparecer praticando esporte, fazendo ginástica, vestindo jeans, mas em situações muito particulares. O presidente de um país ocidental raramente usará barba ou terá cabelos compridos agitados.

Denis Fleurdorge explica: “A codificação pela vestimenta faz parte da encenação do poder pelo simples fato de como ele é visto e interpretado”.

O poder não abre mão de rituais, imagens, liturgias e aparências. O presidente italiano do filme de Sorrentino tem algo de anacrônico: contenção em excesso. É típico de um regime parlamentarista: o presidente deve ser figura discreta. Nada a ver com os protagonistas de regimes presidencialistas puros como Donald Trump, nos Estados Unidos, e Lula.

Se Lula mantém traços de sua militância rebelde, como a barba, ela já não tem qualquer referência ao desinteresse pelas convenções. É barba cuidada, domesticada, retocada a cada dia, adaptada ao poder do dono.

Nem tudo é permitido ao corpo presidencial em sua exibição permanente à sociedade do espetáculo. Ele não deve mostrar fraqueza. Denis Fleurdorge precisa:

“Certas apresentações do corpo podem, com razão ou não, tornar-se metáforas operantes da realidade do poder. Há interdições como ao corpo doente, sinal de que o próprio poder está doente”.

Há, claro, exceções.

Não pretendo ser presidente da república. No máximo, senador. O filme de Sorrentino e o livro de Fleurdorge seriam dois bons guias caso eu decidisse me aventurar na alta política. A solidão do cargo máximo, embora me pareça um tanto exagerada e dramatizada, me levaria a renunciar.

Bom mesmo é refletir sobre as pavonices do poder.

Refletir e ironizar.