Mais de 1,2 mil crianças de até 14 anos estavam em união conjugal em 2022, quando o IBGE coletou dados para o Censo. Em reportagem, Tiago Medina e Pedro Pereira ajudam a traduzir o que esse número pode representar.
No noticiário de hoje, também destacamos a operação da Polícia Civil contra a violência doméstica, além de detalhes da primeira visita do presidente Lula ao estado em 2026.
Nas colunas desta quarta-feira, Flávio Kiefer fala do aquecimento das cidades – o que remete a uma pulsão de morte urbana: “a mesma que nos condena, entre as tantas que nos afligem diariamente”, afirma o colunista. Juremir Machado da Silva escreve sobre suas expectativas, poucos dias antes da divulgação dos indicados ao Oscar 2026, e Roger Lerina faz a resenha de Ato Noturno, filme ambientado em Porto Alegre. Pela Parêntese, Leonardo Tkacz faz uma leitura psicanalítica das novas e velhas tiranias.
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Rio Grande do Sul tinha mais de 1,2 mil crianças em união conjugal em 2022
Dados da pesquisa sobre nupcialidade e família, realizada junto com o Censo 2022 do IBGE, apontaram que o Rio Grande do Sul tinha, naquele ano, 1.283 crianças de 10 a 14 anos vivendo em união conjugal. Em Porto Alegre, o levantamento indica que havia 169 crianças de 10 a 14 anos nesta condição no período.
A pesquisa do IBGE também mostrou que a condição de união conjugal entre crianças é mais presente entre meninas do que entre meninos – no estado, o índice de meninas nesta situação era 2,5 vezes superior ao de meninos. Na capital, a diferença é quase quatro vezes maior.
À Matinal, a defensora pública dirigente do Núcleo de Defesa da Criança e do Adolescente (Nudeca), Paula Simões Dutra de Oliveira, comentou que o número reflete as condições de desigualdade de gênero e vulnerabilidade social.
“Em um contexto de população mais periférica, mais vulnerável, a ausência de políticas públicas e do Estado em muitos serviços essenciais repercute neste número”, ressaltou.
Para a defensora, os dados devem ser usados para embasar a promoção de políticas públicas, visando a criação de ações que resguardem o público infantil: “Precisamos, a partir desses números, criar essas políticas públicas que resguardem os direitos de crianças e adolescentes”.
Leia a reportagem completa:
O QUE MAIS VOCÊ PRECISA SABER
Polícia Civil conduz força-tarefa para combater violência contra a mulher no estado
Uma força-tarefa da Polícia Civil para combater crimes de violência contra a mulher teve início nessa terça-feira e se estende até hoje. A operação “Ano Novo, Vida Nova” tem como alvo agressores investigados por violência doméstica. Cerca de 50 mandados devem ser cumpridos em todo o Rio Grande do Sul. Até as 11h de ontem, a Polícia Civil havia prendido 13 homens, além de apreender armas.
A ofensiva coincidiu com uma sequência trágica: só nos últimos três dias, pelo menos três mulheres foram assassinadas por namorados ou ex-companheiros no Rio Grande do Sul. Na zona sul da capital, Paula Gabriela Torres Pereira e Josiane Natel Alves foram mortas pelos ex-companheiros. Na região metropolitana, em Sapucaia do Sul, Mirella dos Santos, de 15 anos, foi assassinada pelo namorado. Mirella tinha medida protetiva contra o autor do crime.
Nesta segunda, a Matinal publicou reportagem na qual especialistas apontam que as estratégias para combater os feminicídios são distintas das empregadas no enfrentamento de outros crimes violentos – que tiveram redução histórica em 2025. O delegado Juliano Ferreira, diretor do Departamento Estadual de Proteção a Grupos Vulneráveis da Polícia Civil, que conduz a operação, afirmou em entrevista que o feminicídio é mais difícil de prever e exige uma atuação em rede.
Em Rio Grande, Lula entrega casas e marca retorno do polo naval
Cumprindo agenda em Rio Grande durante a sua primeira visita ao estado em 2026, o presidente Lula participou pela manhã da entrega de 1.276 moradias populares do programa Minha Casa, Minha Vida - Entidades. A obra beneficiará pouco mais de 5,1 mil pessoas oriundas de famílias com renda bruta de até 2.850 reais. Lula destacou que as casas deixavam um legado de dignidade aos beneficiados.
À tarde, o presidente foi para o Estaleiro Ecovix Rio Grande (ERG), onde assinou contratos do programa Mar Aberto, da Petrobras e da Transpetro, que marcam a retomada do polo naval da cidade. No estaleiro, cinco navios serão construídos ao preço de 2,2 bilhões de reais. Na ocasião, o presidente disse ainda torcer para que petróleo seja encontrado em Pelotas.
Presente no evento em Rio Grande, o governador Eduardo Leite (PSD) foi vaiado ao iniciar seu discurso e reclamou: “Este é o amor que venceu o medo? Não, né? Então vamos respeitar”, afirmou. Quando falou, Leite cobrou mais incentivos fiscais para o RS.
Os efeitos imediatos da mudança do clima se manifestam pelas alterações nos padrões de chuva, secas e incêndios, mas projetos desenvolvidos ao longo do território nacional exploram como a saúde mental também é afetada pela crise generalizada. No Rio Grande do Sul, o hospital Moinhos de Vento investiga como as enchentes agravam sintomas, enquanto em Manaus, especialistas da Fiocruz tentam entender como a diminuição dos níveis dos rios impacta a vida das comunidades ribeirinhas. As iniciativas, em fase inicial e desenvolvidas separadamente, analisam situações que dão origem a sintomas como ansiedade, estresse pós-traumático e depressão crônica.
Intitulado "Recomeçar", o projeto do Moinhos de Vento se propõe a elaborar um melhor suporte psicológico com os dados obtidos, com base em protocolos da Organização Mundial da Saúde – o público-alvo são pessoas a partir dos 16 anos, e o objetivo é avaliar cerca de 10 mil moradores de regiões afetadas pelas águas. Na Amazônia, pesquisadores pretendem desenvolver soluções a partir de sugestões das próprias comunidades, considerando ainda um recorte de gênero, para entender como as mulheres são mais impactadas pelo contexto. Saiba mais sobre os projetos.

OUTRAS NOTÍCIAS
O prefeito Sebastião Melo optou por silenciar sobre o projeto que autoriza cobrir parte da Rua dos Andradas, proposta apoiada por sindicatos empresariais, mas criticada por urbanistas. O texto agora retorna à Câmara, onde será promulgado.
Ao Jornal do Comércio, empresários do 4º Distrito manifestaram apreensão diante do risco de esvaziamento da região, após o impacto provocado pela enchente de 2024.
Porto Alegre já instalou 1.053 novas paradas de ônibus desde que firmou contrato de concessão com a empresa Eletromidia, há três anos. Espera-se que outras 454 paradas sejam implementadas até o final deste ano.
Ontem, cinco contêineres de lixo foram incendiados no Centro Histórico, nas ruas Riachuelo, Vasco Alves e General Portinho. O caso é investigado e suspeita-se de ação coordenada.
A Federação Gaúcha de Ginástica retomou os treinos no CETE, com a abertura emergencial do Projeto Verão, após uma liminar concedida pela justiça do RS. Entenda o caso.
A justiça gaúcha também autorizou o início do pagamento a credores trabalhistas do Hospital Parque Belém, com valor inicial de 12 milhões de reais.
As três universidades do RS – Ulbra, Atitus de Passo Fundo e Univates – que obtiveram nota insuficiente no Enamed, se manifestaram sobre o baixo desempenho na avaliação dos cursos de Medicina, promovida pelo MEC.
Em meio a uma grande celeuma interna, o diretório estadual do PP chegou a um indicativo em prol de uma aliança com o PL para as eleições. Forte no interior, o partido deve deixar o governo Leite.
Empolgado pelas indicações ao Oscar 2026, que saem nesta quinta-feira, Juremir Machado da Silva apresenta argumentos a favor e contra o longa de Kleber Mendonça Filho, O Agente Secreto.
Sobre as tiranias: uma possível leitura psicanalítica
por Leonardo Beni Tkacz
Hitler, Trump e Putin, cada um em seu contexto histórico, funcionam como personagens de um ideal do eu coletivo. Eles são autoridades governamentais que encarnam uma fantasia de poder, força, de “homens de bem” e onipotência. Há sempre em seus discursos a promessa da restauração da ordem que fora perdida. Aliás, eles nomeiam os inimigos e autorizam a violência pelas massas.
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Aquecimento Local
Quem vive em Porto Alegre sabe bem o que é enfrentar as ondas de calor que agora se abatem sobre a cidade em qualquer época do ano. Se o mormaço excessivo já é um problema, a notícia ruim é que vai piorar. A prefeitura, além de não enfrentar de frente o problema, que exige atitudes radicais e imediatas, tem agido em sentido contrário.
A dissonância cognitiva em relação à questão do conforto térmico das cidades me faz pensar em uma pulsão de morte urbana. A mesma que nos condena, entre as tantas que nos afligem diariamente, a passar horas no ir ou vir, tomar banho em praias poluídas e a viver cercado por muros e concertinas.

CULTURA
Desejo e perigo se enlaçam em “Ato Noturno”

Filmado e ambientado em Porto Alegre, o thriller erótico Ato Noturno (2025) mostra a cidade como cenário do relacionamento ao mesmo tempo velado e exposto entre dois jovens homens. Dirigido pelos gaúchos Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, o filme foi exibido no Festival de Berlim do ano passado. Leia a resenha de Roger Lerina.
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