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Como seriam os EUA se o Eixo tivesse vencido a II Guerra?

Série "O Homem do Castelo Alto" da Netflix é inspirada em livro de Phillip K. Dick

Como seriam os EUA se o Eixo tivesse vencido a II Guerra?
Netflix/Divulgação

Vamos falar de séries que não são novas, mas não envelhecem, e por isso mesmo merecem  um tratamento todo especial aqui neste espaço.

O Homem do Castelo Alto está há um bom tempo na minha, na sua, na nossa Netflix, e é um belo exemplo de série atemporal, pelo simples motivo de que o que ela conta não sai de cartaz, nunca. Basicamente, sempre é possível se olhar para o que está aí em comparação com o que poderia estar aí, se algo tivesse feito zag, em vez de ter feito zig. Se os turcos tivessem vencido a Batalha de Lepanto, em 1571 – e Miguel de Cervantes lutou nela –, talvez as estimadas leitoras desta coluna fossem forçadas hoje a usar o hijab, o véu islâmico, em vez de saírem por aí livres, leves e soltas, como felizes mulheres ocidentais. Se os espanhóis não tivessem afundado no Canal da Mancha, se o Papa não tivessem feito o Tratado de Tordesilhas, se o Toninho Cerezo não tivesse dado aquele passe maluco no segundo gol do Paolo Rossi. Se, se, se.

E se Hitler tivesse vencido a II Guerra Mundial no Atlântico, e os japoneses no Pacífico? Em busca de respostas para esses dois “se”, nosso estimado autor de livros pra lá de provocativos Phillip K. Dick escreveu O Homem do Castelo Alto, que deu origem a essa série. Ele aproveitou o embalo e também criou um outro livro ficcional ao contrário, O Gafanhoto Pesa, de um imaginado autor chamado Hawthorne Abendsen, um suposto autor que criou um livro (O Gafanhoto...) no qual os americanos ganham a guerra, portanto, sendo um livro proibido. Esse livro ficcional fica dentro de O Homem do Castelo Alto, obra dentro da obra, e lá vamos nós.

Na série, os Estados Unidos foram divididos: do lado Leste, os nazistas criam sua ideia de paraíso terrestre – basicamente o paraíso fascista que o Trump adoraria impor. Do outro lado, na Costa Oeste, os japoneses implementam sua visão de mundo, com a suavidade que marcou o Japão imperial e levou aos massacres inigualáveis na China.

O que torna o mundo dos “se” tão interessante é que ele não deixou de ser “se” por detalhe. A Inglaterra resistiu tudo o que a França desistiu, e isso impediu a Alemanha de conquistar a Europa em 1940 e tornar o continente inacessível. O Japão, até 1942, parecia mesmo invencível, e quem tivesse bom senso provavelmente apostaria neles.

O livro de Phillip K. Dick e a série navegam no que parecia impossível em 2015, data do lançamento da série, mas de lá pra cá se aproximou muito do provável: um Estados Unidos privado de liberdade, tomado por forças mais do que reacionárias, fascistas.

O mundo de 2015 não tinha ainda sequer imaginado um Trump presidente, o que aconteceu em 2016 para surpresa geral da galera. O problema de livros distópicos é este: eles podem deixar de ser distópicos, e rapidinho.

O mundo depois da II Guerra saiu do horror nuclear para um lugar de relativo conforto com o imperialismo americano. O outro império do pós-guerra, o soviético, era basicamente terrestre, e não se projetava para além da Europa Central e Ásia. O império americano navegava nos oceanos e no dólar e, assim, chegava em toda parte.

Especular sobre possibilidades e alternativas que a História poderia ter seguido é sempre um bom exercício. As coisas, em geral, podem ficar pior. Não ficam por detalhe.

Na verdade verdadeira, o que Hitler e os japoneses não tinham compreendido ainda era que a II Guerra Mundial não ia ser como as outras guerras ⎯ e nem mesmo como a I Guerra Mundial ⎯, entre outros motivos porque ela foi bem mais mundial. Além de muito mundial, ela foi uma guerra que somente poderia ser vencida por superpotências, e Alemanha e Japão eram potências, mas não eram súper. No mundo dos anos 1940, que Alemanha e Japão não entendiam direito, superpotências era algo que somente os Estados Unidos e a União Soviética poderiam ser.

A Alemanha podia vencer potências europeias, e venceu. O Japão podia vencer países fracos da Ásia, e podia vencer as forças coloniais das potências europeias como Inglaterra, Holanda e mesmo os Estados Unidos, temporariamente, e localmente. Mas nenhum dos dois tinha bala na agulha para enfrentar e vencer as superpotências da época em uma guerra aberta e de produção material. A União Soviética e os Estados Unidos produziam tanto que a Alemanha não tinha chance alguma, e o Japão menos ainda.

Isso não impede que O Homem do Castelo do Alto não produza os seus frios na espinha de quem olha para o mundo de hoje e não sente segurança em coisa alguma. No momento, americanos podem vencer a guerra no Irã, ou perder. Das duas formas, a gente sai perdendo.

Por hora, o jeito de transformar perdas em ganhos e ver boas séries que especulem sobre o mundo, sobre as realidades possíveis e sobre uma realidade em que o Cerezo não tentasse aquele passe infernal.

Vai quê?

Fica a dica.

 

 

 

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