Em sua promissora estreia na direção, a atriz Kristen Stewart leva às telas as memórias de uma jovem que cresce marcada pelo abuso sexual do próprio pai na infância e na adolescência. Exibido na mostra Un Certain Regard no Festival de Cannes, A Cronologia da Água (2025) apresenta um retrato fragmentado, sensorial e íntimo de uma mulher em disputa com a memória, o desejo e a busca por uma voz própria.
Adaptação do livro homônimo da escritora Lidia Yuknavitch, relato situado entre memória, biografia e autoficção, A Cronologia da Água é uma singular história de formação de uma jovem que primeiramente vai buscar na natação uma forma de sobreviver aos traumas e superar o silêncio do lar sufocante. No entanto, Lidia (Imogen Poots) também vai enfrentar abusos nesse ambiente, levando-a a abandonar os sonhos atléticos e afundar em um ciclo de autossabotagem.
Ao mesmo tempo em que encara crises e instabilidades emocionais, a protagonista vai encontrando na escrita um caminho para conhecer o próprio corpo, construir um identidade autônoma e transformar o trauma em possibilidade de existência.

"A experiência feminina é um segredo enorme. Desde pequenas, a gente aprende a guardar quase tudo só para si. Mas contar segredos pode ser profundamente libertador", argumenta a diretora e roteirista Kristen Stewart, que diz ter ficado fascinada desde o começo da leitura do relato da autora: "O que me fisgou foi ver uma história se quebrar por inteiro e, ainda assim, tentar costurá-la de volta. Foi aí que eu soube que esse precisava ser o meu primeiro filme”.
O elenco de A Cronologia da Água inclui nomes como Thora Birch, a cantora, guitarrista e baixista Kim Gordon (ex-vocalista da banda Sonic Yotuh) e Jim Belushi, que interpreta Ken Kesey ⎯ autor do romance que inspirou o filme Um Estranho no Ninho (1975), clássico do cinema moderno dirigido por Milos Forman e estrelado por Jack Nicholson. Figura central da contracultura nos Estados Unidos, Kesey teve papel decisivo na formação literária de Lidia Yuknavitch, com quem estudou na Universidade de Oregon.

Afastando-se dos modelos de cinebiografias convencionais, Stewart maneja com inteligência e sensibilidade recursos cinematográficos como a montagem de imagens, o desenho de som, os enquadramentos e a direção de fotografia ⎯ o longa foi rodado em película de 16mm, o que confere uma textura visual que remete aos filmes caseiros, reforçando a ideia de evocação de lembranças ⎯, criando em A Cronologia da Água uma narrativa que ilustra visceralmente os diferentes ritmos, estados de espírito e tempos vividos pela personagem central.
"Minha esperança é que o público saia do cinema sentindo que recuperar a voz pela arte, pela escrita, ou simplesmente contando a própria história é um ato de poder radical. Histórias salvam. E estão nas nossas mãos para contar. É por isso que eu quero fazer filmes", resume Kristen Stewart, que despontou como a heroína da série adolescente de sucesso Crepúsculo e tem marcado sua carreira de atriz nos últimos anos pela presença em títulos mais autorais como Personal Shopper (2016), de Olivier Assayas, Crimes do Futuro (2022), de David Cronenberg, e Love Lies Bleeding ⎯ O Amor Sangra (2024), de Rose Glass.

A Cronologia da Água: * * * *
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