Uma jovem prestes a completar 30 anos decide tomar uma cerveja depois do trabalho. Já no bar, logo após falar com o garçom, a cadeira em que ela está sentada se espatifa, levando a personagem ao chão, humilhada. O acontecimento desencadeia uma série de reflexões sobre lembranças e vivências da mulher gorda, protagonista de Infinita (Autêntica), de Camila Maccari.
Alternando entre duas vozes narrativas, o livro desenrola-se a partir da quebra do móvel, que traz a tona o ódio da protagonista pelo seu próprio corpo e a busca inalcançável por um “corpo ideal”. As memórias da personagem são marcadas pelo seu peso, que somado à idade, conduz sua existência.
A história da própria vida começa a ser contada aos sete anos, porque é ali que sua missão lhe é entregue nas mãos e ela aprende que é a única responsável pelos resultados colhidos ou não. Talvez tenha acontecido antes, não tem como saber, mas sente que foi nessa fase que a mãe percebeu que ela era definitivamente uma criança gorda. (p. 45)

A autora comenta que o objetivo não foi trazer as experiências de todas as pessoas gordas do mundo, mas sim ser fiel à personagem. “Minha tentativa foi escancarar esses pontos, trazer essas experiências que muita gente não tem ideia que alguém está passando, apresentar um tipo de mundo cruel que muita gente desconhece”, relata Camila.
Quebrar a cadeira já tinha feito o serviço, provando que, para ela, o mundo não era um lugar totalmente seguro, ela não podia simplesmente ir na onda e ficar à vontade, estar em alerta era um pré-requisito da própria existência (p. 16)
A obstinação – e quase obrigação externa – por emagrecer e a gordofobia sofrida ao longo da vida delineiam a trajetória da jovem, assim como demarcam seus relacionamentos familiares e amorosos. Além de trazer as lutas internas da personagem, Camila aborda a relação de um corpo gordo com o mundo, que privilegia padrões inalcançáveis.
O baque em seu percurso, literal e figurativo, a força a repensar sua vida e buscar soluções que deem fim àquele sofrimento. “Quando a cadeira quebra, ela tem a certeza de saber o que todo mundo em volta dela estava pensando: gorda, gorda, gorda. Como se ela não fosse um indivíduo, como se o corpo gordo dela não fosse ela em sua totalidade”, observa a autora.
Leia a entrevista a seguir com Camila sobre o processo de escrita de Infinita e a construção da personagem principal.
Como e quando surgiu a ideia de abordar a vivência de uma mulher gorda?
Em 2017, quando ainda fazia o mestrado em escrita criativa na PUCRS – um período em que escrevi pouquíssimo, mas escrevi o primeiro livro –, eu participei de um grupo de escrita orientado pelo professor Paulo Ricardo Kralik, justamente para ver se eu escrevia um pouco. A ideia era que levássemos contos e debatermos esses materiais em grupo. Então, um dia, decidi levar um conto sobre uma mulher gorda que quebra uma cadeira, não lembro de onde exatamente a ideia surgiu, na minha cabeça foi algo repentino, natural, mas eu tendo a esquecer essas coisas.
Quando me perguntam sobre o primeiro livro também, eu tento recuperar o caminho que me levou até a ideia, mas não sei se essa recuperação é completamente honesta. Mas enfim, o que eu lembro é da escrita do texto: era um domingo à noite, minhas amigas estavam na minha casa e, em determinada altura, eu me tranquei no quarto por alguns momentos para escrever esse conto e a história fluiu. Quando apresentei no grupo, todo mundo gostou muito e, na saída, o Kralik me chamou e disse que eu poderia transformar isso em um livro e isso colou em mim. Estive com essa história comigo por cinco anos antes de sentar para transformá-la em livro.

O incidente da cadeira funciona como um gatilho para a narrativa. Como surgiu essa ideia?
Para responder essa pergunta, eu teria que inventar uma história também, porque não lembro. Mas sei que a história surge a partir da cadeira quebrada e não o contrário: primeiro se quebra a cadeira e depois se desenvolve a protagonista e não primeiro vem a protagonista e, então, para sustentá-la, a criação de um gatilho. Isso é verdade, disso eu sei, mas de onde veio, não sei, mesmo, foi algo que aconteceu na minha cabeça e aí precisava ser concreto e ir para o papel.
A protagonista passa por grandes reflexões sobre seu corpo e lugar no mundo enquanto mulher gorda. Como foi o processo de construir esse percurso de forma tão intensa?
Foi extenuante porque é extenuante estar envolvida permanentemente com um sentimento constante de inadequação, de não pertencimento, de raiva e ódio. Fiquei muito envolvida com a história, com a personagem e com a narrativa em si. Precisava que a narrativa fosse tão intensa quanto a história, buscar meios de fazer com que a história da personagem ecoasse intensamente dentro da própria história – e assim veio a escolha das vozes narrativas, tanto da terceira pessoa quanto da segunda pessoa que, na verdade, é uma primeira, um discurso interno que, em certa medida, todos temos, alguns com mais crueldade outros com mais brandura.
Existe alguma razão específica para a personagem principal não ter nome? O que isso representa na construção da sua identidade?
A representação da forma como ela se sentia – e, em muitas ocasiões, era, de fato, vista. Quando a cadeira quebra, ela tem a certeza de saber o que todo mundo em volta dela estava pensando: gorda, gorda, gorda. Como se ela não fosse um indivíduo, como se o corpo gordo dela não fosse ela em sua totalidade. Representa a cisão que a própria personagem vive todos os dias, de um lado o que ela considera ela, do outro, o seu próprio corpo, esse que era visto e subjugado pelos outros.
No trecho “Estar alerta era um pré-requisito para a própria existência” vemos um sentimento profundo da protagonista em relação à sua vivência como mulher gorda. Mas, de certo modo, essa descrição também poderia refletir a experiência da maioria das mulheres, gordas ou não. Como você enxerga essa relação entre a vivência da personagem e a experiência feminina de forma geral?
Acho que sim e que, por isso, muita gente tem se identificado com o livro, mulheres magras também, que estão a vida inteira conscientemente tentando caber em um padrão de beleza que, muitas vezes, é inatingível porque é da ordem da ideia, aspiracional, porque sempre se pode melhorar e estar melhor, um pouco daquela coisa meio boba de estarmos sempre em busca de uma “melhor versão” e do quanto isso passa por estar no “melhor corpo possível”. Em maior ou menor grau, todas sofrem com isso, todas sentem sobre si olhares julgadores que também são internalizados.
Mesmo assim, vale ressaltar que existem as que passam por isso em maior grau, é bom ter essa diferenciação. Uma mulher que busca desesperadamente atingir um padrão experiencia inúmeras questões, mas não vive o que uma pessoa com obesidade vive de fato. São coisas de ordem prática mesmo, um mundo que não é feito para você caber, e isso vai além da pressão estética.
Os relacionamentos românticos da protagonista também são abordados, e é interessante notar que, em muitos momentos, ela explora a vida sexual e amorosa com certa liberdade. Como você vê esse reconhecimento do desejo de uma mulher que foge dos padrões estéticos impostos pela sociedade?
Vejo isso como um ato de resistência e como um aceno para um tipo de liberdade que pode ser transformador, o desejo ouvido, atendido. Todo mundo transa, todos os corpos têm direito ao gozo, corpos gordos transam e gozam. Pessoas gordas são dignas de serem desejadas e são seres desejantes, isso é algo óbvio, mas que ainda precisa ser dito. Apesar disso, essa liberdade não é o caso da protagonista.
Na maior parte da sua vida, ela não explora a própria sexualidade como alguém que se sente livre, pelo contrário, ela o faz porque acredita que assim seria um pouco mais livre, faz isso como uma tentativa de provar para si mesma que ela é além do corpo dela, porque dentro dela já tinha internalizado a crença de que alguém como ela não tinha direito ao desejo, ao gozo.
Quando ela conhece o namorado, vive a experiência de um corpo, se não magro, mais “aprazível” aos olhos sociais e é desse ponto que a relação sexual deles é construída. Depois disso, claro, a confiança entre os dois se instaura e dentro dessa relação ela tem a oportunidade de viver uma sexualidade plena, acessando o próprio gozo de forma natural e não da maneira que acessou em diversas outras vezes.
Além do incidente com a cadeira, muitos relatos da personagem são experiências cotidianas. Como você buscou retratar os pequenos aspectos da vivência de mulheres gordas?
Se a gente olhar bem para o mundo ao redor, percebemos que ele é feito para limitar o acesso de pessoas gordas, elas não cabem ali, literal e figurativamente. Literal porque não cabem mesmo: é a catraca do ônibus, o tamanho do assento do ônibus que tem que fazer caber duas pessoas, a poltrona minúscula do avião, a numeração de diversas marcas, as cadeiras frágeis demais. Figurativamente porque as pessoas não as querem ali: a pressão pelo emagrecimento, os relacionamentos que não acontecem, o sexo escondido, as piadas em grupos de WhatsApp, a falta de noção e gordofobia do mundo em geral, mas mais especificamente do mundo que está próximo, que cerca essa pessoa. Minha tentativa foi escancarar todos esses pontos, trazer essas experiências que muita gente não tem ideia que alguém está passando, apresentar um tipo de mundo cruel que muita gente desconhece.
Em nenhum momento na escrita desse livro eu quis ser porta-voz de todas as pessoas gordas do mundo, longe disso. Minha preocupação era ser fiel à protagonista e eu sinto que fui. No arco da história dela, a partir de tudo o que ela viveu e o que ela redescobriu em si, o caminho que ela toma é quase natural, o desejo que se apodera dela, me parece, faz sentido.
A gordofobia é um tema central no livro. Como você enxerga a representação literária desse tema em relação ao debate social atual?
Embora nunca tenha lido nenhum, eu sei que existem livros que abordam o tema do corpo gordo, mas não acho que sejam tantos assim, ainda é um tema que a gente, como sociedade, mascara, finge não ver. Acabamos de sair de um período ilusório de representatividade, com corpos gordos – e vale ressaltar o tipo de corpos gordos de que estamos falando, modelos com quadris largos, mas cintura marcada, barriga mais reta, um corpo gordo “padrão”, mas ainda assim gordo – desfilado em semanas de moda, estrelando peças publicitárias, ganhando algum espaço para além do humor na televisão. Desse movimento, nas redes, conseguimos acompanhar influenciadoras falando sobre body positive e mostrando seus corpos gordos sendo felizes, o que eu acho incrível.
Mas quanto à representatividade conquistada em espaços “oficiais”, sempre fui meio desconfiada e agora, com a volta do culto à magreza, me sinto meio cínica dizendo que eu sabia que isso não ia durar. O que eu espero que dure são as influenciadoras nas redes sociais, sei que fazem diferença na vida de muita gente. Esses dias eu vi um vídeo de uma moça muito magra mostrando o quanto emagreceu, conquistando um corpo que você olha e que grita “distúrbio” e isso voltou a ser normal. Quanto mais culto à magreza, mais gordofobia, menos pertencimento, menos aceitação.
No mesmo período do lançamento de Infinita, foi lançado também o filme A Substância, que trata da busca por padrões de beleza inalcançáveis e do auto-ódio. Como você acredita que esses temas ressoam no público e qual o impacto desses debates na sociedade?
Eu não assisti ao filme, mas sei do que se trata, é claro. Vi pessoas fazendo alguns paralelos entre A Substância e Infinita e acho que eles se relacionam mesmo, bem como você disse. Os dois compartilham dessa crítica aos padrões de beleza impostos às mulheres e exploram como a sociedade insiste numa pressão constante para que corpos femininos se adequem a uma ideia idealizada do que merece valor, o que causa um imenso sofrimento psicológico, além da perda de autonomia sobre o próprio corpo e uma relação conflituosa com a própria identidade.
Sinto que esses temas chegam com uma espécie de baque, que apresentam um mundo que fazemos parte, mas escolhemos relevar, escolhemos entender como “escolhas pessoais” o que, na verdade, é uma pressão externa. São escolhas de assuntos que geram algum tipo de reflexão, tanto sobre si quanto sobre sua relação com o outro. Por exemplo, recebi vários relatos de pessoas dizendo que Infinita ajudou a mudar o olhar que têm sobre um corpo gordo e eu acho isso uma coisa imensa.