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Catto canta amores e desilusões no álbum “Caminhos Selvagens”

Catto canta amores e desilusões no álbum “Caminhos Selvagens”
Foto: Ivi Maiga Bugrimenko

“Se eu tenho algo a oferecer ao público, é a minha história”, diz a cantora e compositora Catto sobre seu quinto álbum de estúdio, Caminhos Selvagens, que chega às plataformas de áudio nesta quinta-feira (15/5). Celebrando os 15 anos de carreira da artista, o disco reúne oito faixas autorais que abordam amores, perdas e transformações em um trabalho intenso e pessoal.

O álbum de inéditas foi planejado para ser lançado em 2020, mas foi adiado devido à pandemia, dando espaço para outros projetos da cantora – como as edições de Love Catto Live e o espetáculo Metamorfoses. “Sinto que esse é o momento certo do disco vir. Estou pronta e madura para encarar essas composições que me atravessam e que são muito íntimas. Como intérprete e performer, sou muito cara de pau, mas como compositora e poetisa, fico me sentindo exposta”, conta Catto, que assina a produção musical do trabalho ao lado de Fabio Pinczowski Jojo Inácio.

Em 2023, a artista lançou Belezas são Coisas Acesas por Dentroálbum tributo à obra de Gal Costa, que percorreu o Brasil e o mundo com mais de 70 shows. “O Belezas… me deu a oportunidade de me aprofundar com o público, ir a lugares que nunca tinha ido, ao mesmo tempo, eu tinha o Caminho Selvagens como um espaço de criação livre, sem pressão de nenhum lugar, além de mim mesma”, comenta a artista. 

Explorando guitarras distorcidas, arranjos orquestrais e sonoridades envolventes, o álbum reflete as vivências dos últimos anos de Catto – período marcado por perdas e transformações. “O disco é absolutamente biográfico. Tudo que está dito eu vivi intensamente.”

Compostas a partir de 2018, as letras do álbum são de autoria da artista, com exceção da faixa-título, escrita em colaboração com César Lacerda, responsável também pelo arranjo de piano. Segundo Catto, o processo de escrita foi gradual, marcado por experimentações caseiras no celular ao longo dos anos.

“Comecei a ver que tinha uma estética das programações com os violões que podiam servir de base para uma sonoridade que eu ainda não tinha experimentado. Uma coisa um pouco mais ruidosa, áspera, confessional, como se tivesse encontrado um diário no meio da rua”, reflete a cantora e compositora sobre o início do processo.

Caminhos Selvagens contou com participações de músicos como Bruno SilveiraFelipe PuperiGabriel MayallMagno Vito e Michelle Abu.

Escancaradamente romântica e desiludida

Primeira a ser composta, a faixa Eu Não Aprendi a Perdoar abre o álbum com um cenário desolador ao mesmo tempo que envolve com melodia suave. “Aquele momento que tu levou um pé na bunda ou deu um pé na bunda e que acabou cortando um pedaço de ti. Quando temos uma separação muito dolorosa, é como se tivéssemos morrendo junto com aquela relação”, diz Catto sobre a canção de abertura que, assim como outras do álbum, retrata complexidades, nuances e ambiguidades das relações amorosas. 

Em Eu Te AmoCatto canta um amor avassalador e declarações incertas que chegam acompanhadas de clipe dirigido por Juliana Robin. A produção traz Catto em novo visual, com os cabelos loiros e compridos, explorando quartos de hotéis, rodovias vazias e paisagens escuras. 

“Sou mesmo uma bad girl na vida, aprendi a ser uma grande bad bitch sobrevivente, uma garota da zona norte, do Sarandi. O loiro traz um drama, mas ao mesmo tempo traz algo do rock. É sexy, tem uma coisa perigosa dos filmes do David Lynch. Sempre é uma loira”, comenta Catto sobre a criação visual do álbum. “É a parte em que me divirto, porque na parte de compor eu sofro.”

Capa
Contracapa

O amor em todas as suas facetas é tema recorrente nas canções do novo discoSe em Eu Te Amo a premissa é Eu posso até jurar / Mas foi da boca pra fora que eu te amo; em Solidão É Uma Festa a vulnerabilidade toma conta e dá espaço para confissões dolorosas: Vem sem avisar / E arrasta tudo / Que quiser de mim… / Todas as canções me denunciam / Se repetem sem igual / Como vou viver se ainda sou louca por você.

Destacando a complexidade dos afetos, a faixa Para Yuri Todos Os Meus Beijos expõe uma declaração de amor direta e sem pudores, reunindo nomes, imagens e episódios do passado. De Marcelo eu quero o mal / De Felipe o olho onde me vejo / Ariel no mar dos meus cabelos / Um desconhecido e sua guitarra / Fogo no banheiro / Para Yuri todos os meus beijos.

“Todos aqueles caras marcaram a minha vida – seja por uma noite, por um período longo, por uma paixão platônica, um desejo não correspondido ou até correspondido. Acredito que esses amores sempre estarão vivos dentro de mim. E vou sempre cantá-los.”

Foto: Ivi Maiga Bugrimenko/Divulgação

Além das conexões românticas, a canção destaca espaços emblemáticos de Porto Alegre, cidade natal de Catto. O Bar Ocidente e o Garagem Hermética (já fechado) são referências da cena cultural da capital que marcaram gerações e também a trajetória da artista. Para ela, o álbum foi uma forma de revisitar suas histórias e também refletir sobre o tempo. “É também sobre a minha época, sobre quem eu era ali, em Porto Alegre nunca mais, no Ocidente, no Garagem dando para alguém no banheiro, e sobre como, no final das contas, eu ainda sou essa mesma pessoa, mas com muitas outras vivências”, afirma.

Abrindo a segunda parte do álbum, a faixa título canta a dor e a transformação em um poema-manifesto, que segundo a artista, “é como se fosse uma morte e um renascimento”. Sob o meu país cheio de horror / E a vingança de cantar a vida / Que habita em caminhos selvagens.

A virada do clima vem com Madrigal, uma celebração sensual da liberdade e do prazer feminino. Já 1001 Noites Is Over reforça o mantra “Eu só quero arrasar e ser feliz”, em um rock de libertação que declara o amor próprio. 

Por fim, Leite Derramado evoca um fim de relacionamento, algo que já aconteceu e não tem conserto. “Só nos resta recolher os cacos / E sobreviver”. “É um pouco a aceitação do reencontro, naqueles momentos que tu reencontra uma pessoa do passado e de repente aquilo não faz nenhum sentido, mas tu carrega aquela história com tanta beleza dentro de ti, que sempre vai estar em tentação de cometer os mesmos erros”, reflete Catto. 

Foto: Ivi Maiga Bugrimenko

Para Catto, Caminhos Selvagens representa uma continuação de Saga (2009), seu primeiro EP autoral, em que já explorava temas íntimos. Agora, após um percurso de transformação, a artista reconhece que muito do que descobriu sobre si estava presente lá atrás. 

“Eu vivia num mundo absolutamente proibido para mim. Acho que esses 15 anos foram um exercício de destruir todas as caixinhas em que eu me enquadrava”, explica. 

Com o lançamento de seu quinto disco de estúdio, a artista inicia uma nova fase reafirmando seu nome artístico, que exclui seu “nome morto” – que não corresponde mais à sua identidade de gênero. “Saí da minha zona de conforto absolutamente, para mim é um renascimento. Ter outro nome artístico, me rebatizar, me celebrar, poder me parir de novo. Caminhos Selvagens veio num momento que estou tão bem resolvida com quem eu sou, que minha história é o meu maior trunfo”, celebra a cantora. 

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