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"Começa com intensidade e termina com leveza"

Três perguntas para Deborah Colker: coreógrafa fala sobre o espetáculo "Remix"

"Começa com intensidade e termina com leveza"
Flávio Colker/Divulgação

Um dos mais importantes grupos de dança contemporânea do Brasil, a Companhia Deborah Colker está completando 30 anos. Para celebrar essa trajetória, o balé estreia em Porto Alegre na sexta-feira (3/4) e sábado (4), no Teatro FIERGS, o espetáculo Remix. A montagem reúne cenas icônicas extraídas de Vulcão (1994), Rota (1997), 4x4 (2002) e Belle (2014) ⎯ incluindo as coreografias com os vasos suspensos e a roda gigante.

Com 16 espetáculos em seu repertório, a companhia recebeu em 2018 o Prix Benois de la Danse de Moscou, o mais importante prêmio da categoria. Em 2009, Deborah Colker foi convidada pelo Cirque du Soleil para a criação de OVO, sendo a primeira mulher a dirigir um espetáculo para a célebre trupe canadense.

Flávio Colker/Divulgação

Em 2016, a coreógrafa e bailarina foi a diretora de movimento da cerimônia de abertura das Olimpíadas do Rio de Janeiro, evento transmitido para mais de 2 bilhões de pessoas em todo o mundo. 

Na entrevista exclusiva a seguir, Deborah Colker explica como surgiu Remix, lembra as três décadas de sua companhia e comenta sobre a ópera que vai dirigir para o Metropolitan de Nova York ⎯ uma produção que tem música da compositora estadunidense Gabriela Lena Frank com regência do maestro canadense Yannick Nézet-Séguin, sobre o relacionamento entre os pintores mexicanos Frida Kahlo e Diego Rivera.

Porto Alegre recebe estreia mundial de “Remix” da Companhia Deborah Colker
Espetáculo reúne cenas icônicas criadas pela companhia ao longo de três décadas

Quais foram os critérios para a seleção das cenas de Remix? Qual é o percurso que o espetáculo apresenta?

Remix atravessa as três décadas da companhia, passando por quatro espetáculos: Vulcão, Belle, 4x4 e Rota. Quando decidimos olhar para a nossa história, percebemos diversos momentos coreográficos, em diferentes obras, com uma potência muito grande. Então, pela primeira vez, resolvemos unir cenas de espetáculos distintos e criar uma dramaturgia.

Eu me dei conta de que tínhamos bailarinos que nem eram nascidos quando criamos Vulcão, em 1994, e Rota, em 1997. Por isso, foi difícil escolher, já que temos muitos momentos icônicos para nós. Começamos pela Paixão, que foi a primeira coreografia que fiz para o espetáculo Vulcão, em 1994. João Elias, que assina a dramaturgia, optou por seguir com a cena Delírios, de Belle, em 2014, e depois com As Meninas e O Vaso, de 4x4.

O primeiro ato é intenso e visceral, trazendo emoções fortes. Ele se desenvolve mais próximo ao chão, mais ligado à terra, com intensidade, ímpeto e fúria, e se encerra com o risco e a delicadeza de Os Vasos, que apresenta uma movimentação intensa dentro de um espaço restrito.

No segundo ato, com Gravidade e Roda, do espetáculo Rota, de 1997, começamos a suspender e a buscar um novo estado de espírito. Na ausência da gravidade, os bailarinos investigam a física do movimento através do desequilíbrio e a busca do equilíbrio perfeito. Com a Roda, símbolo ancestral da vida que reproduz a rotação da Terra, o movimento sem começo, meio e fim, ocupamos e exploramos o espaço, dançando a valsa da vida.

Assim, Remix começa com intensidade e termina com leveza.

Flávio Colker/Divulgação

Como você avalia a trajetória da companhia e do seu trabalho como criador nestes 30 anos de montagens?

A companhia vem experimentando o movimento e o corpo, transformando ideias em um espaço corporal. Buscamos trazer temas contemporâneos para dialogar com a dança: literatura, artes plásticas, arquitetura, esportes e o Brasil. Somos incansáveis no desejo de explorar, por meio da dança, novas possibilidades.

A troca com o público é muito importante, e seguimos, assim, desejando cada vez mais palcos e plateias. Desde 2005, contamos com um Centro de Movimento fundamental, onde desenvolvemos formação, estudo e educação. Essa dupla ⎯ companhia e Centro de Movimento ⎯ se provoca e se estimula mutuamente.

Tenho a sensação de que, ao fazer arte, especialmente dança contemporânea, precisamos estar sempre formulando novas perguntas. Temos uma trajetória internacional e nacional, com reconhecimento e alguns prêmios, mas o que realmente nos impulsiona para a frente é o público.

Met/Divulgação

Qual é a sua concepção cênica para a ópera El Último Sueño de Frida y Diego? Quais são as suas expectativas com relação a essa produção, que vai estrear em 14 de maio no Metropolitan Opera House, em Nova York?

Essa ópera é mítica e aborda o grande amor de Frida e Diego, além de transitar por diferentes mundos: o dos mortos, o dos vivos e também o da arte. Eu sou coreógrafa e diretora, dirigindo uma ópera; por isso, o corpo e o movimento estão muito presentes. Gosto de construir cenas e de criar um cenário que dialogue com a música e com a dança.

Ainda mais tratando-se de Frida, cuja história de vida é também a história de seu corpo ⎯ e de como ela transcendeu, tornando-se uma mulher extraordinária.

Roger Lerina

Roger Lerina

Jornalista e crítico de cinema. Editou de 1999 a 2017 a coluna Contracapa sobre artes, cultura e entretenimento, publicada no Segundo Caderno do jornal Zero Hora.

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