Milonga, música caipira, suingue, sonoridades do batuque e do povo Mbyá Guarani compõem o caleidoscópio musical que o grupo UMBU leva ao palco do Teatro de Câmara Túlio Piva, no dia 8 de setembro, às 20h30. No show, a banda apresenta as faixas de seu álbum homônimo de estreia, que mescla tradições musicais do Rio Grande do Sul com ritmos afrodiaspóricos de outras latitudes – da cumbia ao reggae, passando por dub, samba e baião.
As origens do UMBU remetem a 2018, a partir de conversas entre o diretor artístico do grupo, Lucas Luz (letras, sampler, voz), e o produtor Brenno di Napoli (baixo, cordas e trompete). Preocupados com o contexto político do país e a escalada de ataques à cultura, às vésperas da eleição presidencial daquele ano, os músicos decidiram elaborar um projeto em conjunto.
A dupla mergulhou em referências de trabalhos anteriores e iniciou a fusão sonora que, passada a pandemia, resultaria nos encontros dos artistas com Diih Neques Olákùndé (voz e percussão), Felipe Santos (percussão), Mário Ferrari (bases eletrônicas e guitarra), Rafa Rodrigues (voz, cordas e sax) e Stephanie Soeiro (voz e flauta), que gravaram UMBU entre 2024 e 2025, viabilizado com recursos da Lei Paulo Gustavo. O fotógrafo Guilherme Fernandes também integra o coletivo e dirige o álbum visual do grupo.
“Era importante que cada um trouxesse suas experiências para somar ao que o Brenno e eu pensávamos como produtores do trabalho. Quando vimos, tínhamos um álbum pronto e uma banda formada”, recorda Luz. A complexa costura sonora das 12 faixas de UMBU combina samplers, MPC e sintetizadores com percussões de matriz africana e cordas.
A coleção de instrumentações e tradições musicais molda um álbum homogêneo e pop. “Muitas melodias da música brasileira estão ligadas a tradições populares, como ladainhas de capoeira e lavadeiras, o samba de roda do Recôncavo Baiano e sonoridades do terno de reis que vão sendo passadas através da ancestralidade e resultam na música pop”, reflete Luz. “A gente se influencia pela música que toca na trilha sonora da novela e nas caixas de som do supermercado”, completa o músico, idealizador do Projeto Gema, dedicado à diversidade da música do Rio Grande do Sul em uma série de iniciativas.
Luz também produziu o álbum Alùjá, de Diih Neques Olákùndé, responsável pelos elementos sonoros do batuque em UMBU. “Consegui trazer um pouco do batuque para a minha musicalidade, e da musicalidade tradicional, na falta de outra palavra, para dentro do batuque”, contou Diih à Matinal, em 2021, ao comentar sua trajetória.
Na mesma reportagem, Luz explicava que “umbanda, candomblé, batuque, macumba sempre dialogaram com a música popular brasileira”, desde os primeiros registros fonográficos do samba até uma gama de nomes que inclui J.B. de Carvalho, Orquestra Afro-brasileira, José Prates, Moacir Santos, Dorival Caymmi, Vinicius de Moraes, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Metá Metá.
No contexto do batuque no Rio Grande do Sul, Luz destaca os trabalhos de Abelardo Pereira, Antônio Carlos de Xangô e Mestre Borel. O produtor e músico atribui a escassez de registros sonoros do batuque a fatores como o racismo no estado e a reserva dos praticantes em relação a seus rituais. Na visão da escritora Eliane Marques, a investigação sonora do UMBU “permite circular por seu tronco e folhas parte da seiva feita pelas raízes das tradições bantus, iorubás, guaranis, charruas, ressonando uma singular amefricanidade meridional”.

O interesse do grupo em combater apagamentos também se revela em Obrigado, Igualmente, versão para uma faixa de Prateado e Belinho, irmãos nascidos em Santa Catarina, radicados em Canoas entre os anos 1960 e 1970, que foram expoentes da música caipira no Rio Grande do Sul.
“Eram comuns shows dessas duplas pelos circos do interior do estado e gravações de discos, além de programas de rádio dedicados até hoje exclusivamente para elas. Pena terem sido sistematicamente silenciadas por quem naqueles tempos determinava o que era regional e tradicional gaúcho”, conta Luz.
As homenagens do álbum incluem uma versão para Salve-se Quem Souber, de Gelson Oliveira, a instrumental Tá no Sangue, dedicada a Luis Vagner, e a participação de Edjane Deodoro, que celebra o legado da mestra e coreógrafa Iara Deodoro.
Em Ar-palavra, o UMBU parte da milonga e agrega elementos de funk, merengue, afrobeat e da música tradicional haitiana, com uma mensagem antirracista: “Quando eu subi, lá do alto eu vi/ O meu corpo paralisado, sufocando no chão/ Me assustei de mim quando eu percebi/ Minha morte, a minha extinção”.
Pra Gente Dançar celebra o movimento a partir do terno de reis de Maquiné, enquanto Vherá (Um Bando de Dados para a Gente Acessar) nasce de samples produzidos por Kevin Brezolin a partir de registros do Projeto Gema na Aldeia Tekoá Guaviraty Porã, dos Mbyá Guarani, em Santa Maria.
“Ao ouvir Vherá…, fica clara a continuidade da identidade musical dos Guaranis e como esta se cria e recria em outras facetas musicais, com estéticas modernas, diálogos de resistência e poesia. Em seus acordes, sentem-se as árvores, e as melodias se movem como o vento que, segundo a tradição guarani, é a própria voz do mundo”, destaca o músico Alejandro Brittes e a historiadora Magali de Rossi, pesquisadores das origens do chamamé, em texto que integra a revista produzida pelo UMBU.
Nos versos de Nuvens, o grupo ressalta que “Depois do horizonte, tem outro horizonte/ Outro e outro/ Assim por diante”, uma síntese do interesse do coletivo por uma perspectiva mais plural da música produzida no Rio Grande do Sul – “regional sem ser regionalista”, nas palavras de Luz.