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Duas meninas encaram a morte, o luto e a culpa

"A Natureza das Coisas Invisíveis" levou três prêmios no Festival de Gramado

Duas meninas encaram a morte, o luto e a culpa
Vitrine Filmes/Divulgação

Longa-metragem de estreia da diretora brasiliense Rafaela Camelo, A Natureza das Coisas Invisíveis (2025) recebeu três troféus no último Festival de Gramado: Prêmio Especial do Júri, melhor atriz coadjuvante (Aline Marta Maia) e trilha sonora. O filme mergulha no universo das experiências que as crianças vivem antes de saber nomeá-las: a morte, o luto, a culpa e o medo daquilo que está prestes a acabar.

Coming of age sobre amizade, despedidas e descobertas, A Natureza das Coisas Invisíveis acompanha duas meninas de 10 anos, Glória (Laura Brandão) e Sofia (Serena), que se encontram em um hospital durante as férias de verão. A primeira acompanha a mãe, que trabalha como enfermeira no local, enquanto a segunda visita a bisavó em um momento de despedida. Unidas pelo desejo de sair dali, ambas embarcam em uma jornada agridoce sobre vida e morte, enfrentando verdades que os adultos tentam suavizar. 

As mães das meninas são interpretadas por Camila Márdila e Larissa Mauro. Já as atrizes mirins receberam o prêmio de Melhor Interpretação no Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade, o maior evento de cinema e artes dedicado às narrativas LGBTQIA+ na América Latina.

Vitrine Filmes/Divulgação

“É interessante perceber como o filme, mesmo com elementos muito brasileiros, se comunica com públicos tão diferentes. Falar sobre a morte a partir da beleza de estar vivo parece tocar profundamente as pessoas. É um filme conciliatório, que busca acolher o luto sem negar suas dores, e talvez por isso encontre tanta identificação onde quer que seja exibido”, explica Rafaela Camelo.

A realizadora lembra que o filme nasceu de um questionamento que a acompanhava durante a infância: “Guardo uma lembrança muito nítida de, quando criança, sentir curiosidade sobre a morte e, ao mesmo tempo, me sentir estranha por ter esse interesse. Muitas perguntas passaram pela minha cabeça, perguntas que na época eu não tinha a liberdade de fazer”.

Vitrine Filmes/Divulgação

Essa curiosidade infantil sobre o desconhecido molda a trajetória das protagonistas e reflete na estrutura narrativa do filme, que se divide em duas partes: uma ambientada no hospital e outra em um refúgio no interior de Goiás. “É uma metáfora estrutural, como se, naquele ponto, o filme da forma que foi apresentado tivesse que morrer para outro se formar.”

A jornada de Sofia é um dos fios condutores da narrativa: a trama aborda sua relação com a identidade de gênero de forma sutil e delicada, focando na sua jornada pessoal e na relação com a mãe. “O luto na trajetória da Sofia está ligado a uma despedida simbólica de uma identidade que não existe mais. Quis apresentar Sofia como qualquer outra criança ⎯ curiosa, esperta, cheia de desejos e medos ⎯, antes de qualquer rótulo”, conta Rafaela.

Vitrine Filmes/Divulgação

A Natureza das Coisas Invisíveis: * * *

COTAÇÕES

* * * * * ótimo     * * * * muito bom     * * * bom     * * regular     * ruim

Assista ao trailer de A Natureza das Coisas Invisíveis:

Roger Lerina

Roger Lerina

Jornalista e crítico de cinema. Editou de 1999 a 2017 a coluna Contracapa sobre artes, cultura e entretenimento, publicada no Segundo Caderno do jornal Zero Hora.

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