A Casa Amarela, em Porto Alegre, recebe a exposição Marcas que Atravessam, da artista visual Aglaé Freitas, com curadoria de Vera Carlotto. A mostra é resultado do edital 3º Poa Pópi Ãpi, do qual Aglaé Freitas foi artista vencedora, e reúne um conjunto de obras produzidas nos últimos anos, propondo uma reflexão profunda sobre o corpo feminino como território de memória, cicatriz e insurgência.
A prática artística de Aglaé Freitas se insere no campo expandido da arte contemporânea, tomando o corpo feminino não apenas como tema, mas como lugar onde tudo começa. Sua pesquisa articula gesto, matéria e simbolismo para investigar o que significa existir como mulher em uma sociedade que historicamente tenta apagar, controlar e ferir esse corpo.
Na exposição, a artista utiliza o próprio corpo como instrumento e suporte para a criação de monotipias, moldes e autorretratos que tensionam presença e ausência. Formas, desformas e fragmentos de corpos surgem como vestígios de vulnerabilidade e resistência. Objetos femininos de consumo e uma videoperformance com gestos ritualizados confrontam o mito da beleza, revelando seus efeitos opressores e adoecedores.
O bordado e o crochê aparecem como fios que atravessam o tempo, evocando saberes femininos ancestrais — mãos que ensinaram, cuidaram e resistiram. No percurso criativo de Aglaé, memórias se tornam camadas; símbolos de consumo funcionam como pistas de um imaginário coletivo; e fragmentos corporais evidenciam marcas físicas e psíquicas que operam silenciosamente no cotidiano das mulheres.
Ao tornar visíveis essas inscrições, Marcas que atravessam propõe uma reflexão crítica sobre as formas de sofrimento que incidem sobre o corpo feminino na sociedade contemporânea. A exposição dialoga com a perspectiva da historiadora da arte Griselda Pollock, ao evidenciar como a arte produzida por mulheres ativa camadas de memória e experiência que desafiam narrativas dominantes — especialmente aquelas que transformam o corpo feminino em objeto de desejo ou posse, apagando a vivência real da mulher.
Sem expor apenas feridas, o trabalho de Aglaé Freitas transforma o silêncio em imagem e as cicatrizes em potência poética. Sua obra estabelece conexões entre o real e o imaginário, afirmando uma identidade artística singular e profundamente conectada às questões do presente.
Exposição: Marcas que atravessam
Artista: Aglaé Freitas
Curadoria: Vera Carlotto
Abertura: 28 de janeiro de 2026 (quarta-feira), das 19h às 21h
Visitação: de 28 de janeiro a 20 de fevereiro de 2026
Horário: segunda a sexta-feira, das 14h às 17h
Local: Casa Amarela
Endereço: Av. Américo Vespúcio, 377 – Porto Alegre/RS
Entrada: gratuita