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Exposição reúne obras de 94 artistas mulheres na Fundação Vera Chaves Barcellos

Com curadoria de Bruna Fetter, “Há Pouco?” mergulha no acervo da instituição

Exposição reúne obras de 94 artistas mulheres na Fundação Vera Chaves Barcellos
Foto: Leopoldo Plentz

Mais de 90 obras de 94 artistas mulheres integram a exposição Há Pouco?, que será inaugurada neste sábado (21/3), às 11h, na Fundação Vera Chaves Barcellos (FVCB). Com curadoria de Bruna Fetter, a mostra é a maior já realizada no espaço cultural, tanto em número de participantes quanto de trabalhos – todos pertencentes ao acervo da instituição.

A quantidade de obras, no entanto, não sobrecarrega o olhar. Gravuras, desenhos, fotografias, pinturas, vídeos e objetos foram distribuídos em núcleos, a partir de aproximações temáticas e formais, propiciando leituras diversas a partir de conjuntos. As obras mais antigas datam dos anos 1950, e as mais recentes são da década atual.

Foto: Leopoldo Plentz

Ao longo de quase um ano de pesquisa, Fetter selecionou as obras a partir de mais de 1.500 trabalhos produzidos por mais de duzentas artistas. O mergulho no acervo da FVCB somou-se à análise de exposições e investigações recentes, no contexto local e nacional, que abordaram a produção artística de mulheres com foco em questões ligadas ao corpo, passando por apagamentos da história da arte e temáticas raciais e de classe.

“A exposição não tem um recorte a priori, ela parte de um vasto conjunto de obras feitas por artistas mulheres, colocadas em diálogo. É uma reivindicação de visibilidade e representatividade em experimentações formais que, embora partam de um lugar de artistas mulheres, não são necessariamente uma afirmação desse lugar e podem ser lidas sob várias lentes”, ressaltou a curadora em visita da Matinal à montagem da mostra. 

"Duas flores" (2012/2024), de Maria Lídia Magliani | Foto: Acervo FVCB

No texto do catálogo – que será lançado na abertura da exposição –, Fetter detalha a proposta: “A exposição não pretende oferecer um panorama ou uma chave de leitura particular. Ela busca confrontar vozes, saberes, contextos, mídias e aportar múltiplas e variadas percepções sobre o que sempre esteve ali; talvez obscurecido e fora de foco; talvez inserido ao lado da produção de artistas homens sem considerar tal debate em sua leitura”.

Foto: Leopoldo Plentz

Historicamente, destaca a curadora, ser artista – entre outras inúmeras profissões – esteve vinculado à atuação de homens, por um viés que desconsidera questões sociais e econômicas até hoje desfavoráveis às mulheres.

“No contexto gaúcho, para além das questões relativas ao acesso ao ensino de arte, a baixa expectativa social de atuar profissionalmente a partir do conhecimento adquirido e o funcionamento de uma sociedade estruturalmente machista – na qual posições de poder e lugares de legitimidade ‘naturalmente’ eram, e em grande medida ainda são, ocupados por homens – completavam um cenário artístico no qual as mulheres costumavam ficar à sombra”, explica Fetter.

"LC3", da série Bichos (1965), de Lygia Clark | Foto: Leopoldo Plentz

Jogando luz sobre uma produção múltipla que há muito ganha evidência, apesar dos obstáculos estruturais, a mostra exibe a obra LC3, da série Bichos (1965), de Lygia Clark (1920-1988), um dos maiores nomes da arte contemporânea brasileira e obra basilar do acervo organizado pela artista Vera Chaves Barcellos ao longo de mais de cinco décadas.

"Jardim de Infância" (1996), de Lia Menna Barreto | Foto: Leopoldo Plentz

Outro destaque é a instalação Jardim de Infância (1996), de Lia Menna Barreto, formada por um conjunto de pequenas cadeiras de madeira esculpidas com maçarico. “Para mim, essa obra é o feminismo encarnado. Fala sobre aquilo que queima, que pulsa e o que significa ser mulher, mãe, feminista e todas as violências que sofremos”, reflete a curadora.

Exposição “Há Pouco?” – curadoria de Bruna Fetter
Inauguração: 21 de março (sábado), das 11h às 17h, na Fundação Vera Chaves Barcellos (Rodovia Tapir Rocha, 8480, Parada 54 – Viamão)
Visitação: até 11 de julho, de terça a sábado, das 9h30 às 17h, mediante agendamento por e-mail (educativo.fvcb@gmail.com) ou telefone (51) 98229 3031
Entrada gratuita

As inscrições para o transporte de Porto Alegre a Viamão oferecido pela FVCB estão esgotadas, mas é possível entrar na lista de espera pelo site da fundação – os ônibus saem do Theatro São Pedro em dois horários, 10h30 e 13h30

Artistas participantes

Elaine Tedesco, Angela Jansen, Esther Ferrer, Margarita Kremer, Conceição Piló, Mara Alvares, Sonia Castro, Anna Letycia, Shirley Paes Leme, Gerty Saruê, Marilice Corona, Mira Schendel, Nara Amélia, Ana Baxter, Maria Lucia Cattani, Johanna Vanderbeck, Lorena Geisel, Letícia Ramos, Elza Lima, Marina Rheingantz, Téti Waldraff, Brígida Baltar, Anna Esposito, Teresa Poester, Susana Mentz, Sonia Moeller, Dora Longo Bahia, Jac Leirner, Marilá Dardot, Carmela Gross, Maristela Salvatori, Marilene Burtet Pieta, Thereza Miranda, Helena Kanaan, Heloisa Schneiders da Silva, Ione Saldanha, Maria de Lourdes Sanchez Hecker, Helena Martins-Costa, Liliana Porter, Celina Almeida Neves, Germana Monte-Mór, Lenora de Barros, Sophia Martinou, Lurdi Blauth, Camila Schenkel, Lia Menna Barreto, Elida Tessler, Marlies Ritter, Lygia Pape, Nazareth Pacheco, Regina Silveira, Gisela Waetge, Dione Veiga Vieira, Lygia Clark, Monika Funke Stern, Anna Bella Geiger, Flavya Mutran, Maria Lídia Magliani, Sonya Grassmann, Mitti Mendonça, Rochele Zandavalli, Glaucis de Morais, Mariane Rotter, Susana Solano, Vitória Cribb, Rosângela Rennó, Carolina Gleich, Mary Dritschel, Marta Penter, Glória Munayer, Diana Domingues, Claudia Dal Canton, Maria Tomaselli, Laura Lima, Maria di Gesu, Romanita Disconzi, Zoravia Bettiol, Judith Lauand, Laura Fróes, Ana Miguel, Lenir de Miranda, Karin Lambrecht, Vera Chaves Barcellos, Simone Michelin Basso, Sandra Cinto, Vilma Sonaglio, Regina Ohlweiler, Jeanette Chávez, Letícia Parente, Regina Vater, Laura Miranda, Mônica Infante, Anna Maria Maiolino e Sofia Borges.

Mulheres nos acervos

Em 2018, as pesquisadoras de História da Arte Cristina Barros, Marina Roncatto, Mel Ferrari e Nina Sanmartin, deram início ao projeto “Mulheres nos acervos”, que consiste na coleta e análise de dados sobre a presença de trabalhos de artistas mulheres em cinco coleções públicas de arte da cidade de Porto Alegre. Em 2019, o projeto apresentou os resultados da pesquisa em exposições no MARGS, na Pinacoteca Aldo Locatelli e na Pinacoteca Ruben Berta. Em 2020, o projeto foi vencedor no 13º Prêmio Açorianos de Artes Plásticas na categoria Destaque em Acervos. Saiba mais sobre a pesquisa aqui e relembre a entrevista com as pesquisadoras.

Ricardo Romanoff

Repórter e editor de Cultura na Matinal. Também é tradutor, com foco em artes e meio ambiente, além de trompetista de fanfarra nas horas vagas. Contato: ricardo@matinal.org

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