Se o seu verão anda muito animado, que tal esfriar o clima festivo com alguns episódios da quinta e última temporada de Fargo, uma das melhores séries jamais feitas e vistas neste mundo, vasto mundo?
A quinta temporada chegou à minha, à sua, à nossa Netflix, e isso sempre é motivo pra um olhar assustado pro lado do telão ali na sala. Fargo é daquelas coisas feitas pra estragar o seu final de semana, e ela está ali, 10 episódios todinhos ao nosso dispor. Não ver, como?
Então é ver, e quem ainda não viu nenhuma temporada, considere-se um ser privilegiado, com todas as cinco disponíveis, suficientes para estragar todos os finais de semana até 2027. Inveja.
A série Fargo é inspirada no filme Fargo (1996), dos irmãos Coen. Mas, inspiração cópia não é, e a série se desloca horizontalmente pelo território genérico do filme, o meio oeste americano, a vasta região conhecida por ser ao mesmo tempo gentil e entediante, buscando provar que o meio oeste não é nem uma coisa, nem outra. E consegue.
Fargo, o filme, construía sua teia ao redor de pessoas visivelmente incapazes de fazer o mal, fazendo, e muito. Vidas pequenas, em lugares pequenos e congelados – não é o mesmo que inexistência do mal. O que pode faltar para a emergência desse mal – congelado como a terra lá fora – pode ser motivação, oportunidade, circunstância ou influência. O ser gentil das pradarias americanas é gentil, mas pode mudar de ideia, e, caso isso aconteça, como todos os americanos, ele costuma dispor de um arsenal em casa. O mal americano é diferente porque ele é armado até os dentes, e alimentado por frustrações profundas de quem não realizou algum sonho, ou pela crueldade inerente aos ambientes puritanos. Repressão costuma conduzir a muita, mas muita violência, e esse caldo de motivos é a matéria-prima de Fargo, o filme e a série.
Fargo, a série, segue o estudo sobre o mal nas vidas pequenas, em lugares pequenos, demonstrando que o ser humano segue com seus traumas, independente do lugar. Realizar essa busca pelo mal humano no terreno vazio de lugares como Missouri, Kansas, Nebraska reforça a tese. O mal está em toda parte, mesmo nas planícies onde ele tem mais dificuldade em se esconder. Ele está lá, e basta um gatilho para ele se manifestar em toda a sua plenitude.
A quinta temporada volta ao território do filme, os lados polares de Minnesota, Dakota, esses desertos congelados – anotando que algumas das regiões mais civilizadas dos Estados Unidos também ficam por ali, em cidades como Minneapolis (terra do Prince), Saint Paul e, mais ao sul, a incrível (e violenta) Chicago.
Vidas quase invisíveis, pessoas desprovidas de cor ou motivos, o mal em sua violência e banalidade. Detalhes oscilam, personagens também, e a série segue a mesma e brilhante, na construção das falas, das cenas, dos crimes, dos humanos em todos os matizes, tornados visíveis através de atores de primeiríssima linha, impecáveis na sua expressão da maldade.
Nossa.
Sem spoilers, vejam por tudo isso, vejam pra poderem ver a maravilhosa Juno Temple (que a gente conheceu em Ted Lasso) e o gatão John Hamm, além de grande elenco.
Eu veria no meio do desfile das escolas de samba, só pra temperar o clima. Eu veria durante as retrospectivas de 2025, eu veria em todo e qualquer momento em que a animação se tornasse um pouco excessiva, neste verão de 2026. Não só veria como vi, e vou rever.
Vejam.