Eu já falei sobre a série Reservation Dogs, disponível na Disney+, mas vou falar de novo, porque ela não cabe em uma só coluna, em uma só galáxia, ou em si mesma. Ela teve três temporadas, conseguiu ser sensacional no episódio S01E01, e só melhorar daí pra frente. Comprovem.
Na série, uma turma de jovens indígenas americanos, vivendo em uma reserva que se sobrepõe a uma cidadezinha insípida no insípido estado de Oklahoma, tenta lidar com a morte de um amigo realizando o que era o sonho dele: ir para a Califórnia.
Esse pode ser o ponto de partida, mas tem pouca ou quase nenhuma importância no grande esquema das coisas de Reservation Dogs, a primeira série criada, escrita, dirigida e atuada por indígenas norte-americanos. E ela vale cada segundo do meu, do seu, do nosso precioso tempo, acreditem.
O que importa, de verdade, é que eles são indígenas vivendo o pesadelo dentro do sonho americano, que não deixa de ser um pesadelo ele mesmo. Eles são os descendentes dos guerreiros das pradarias, que dominaram o cavalo, como os nossos guaranis, e se tornaram velozes como o vento, andando por aquele vasto espaço atrás dos seus búfalos, que os brancos conseguiram exterminar simplesmente pelo couro, para fazer esteiras e transmitir a força entre as máquinas a vapor e as ferramentas que criaram a Revolução Industrial americana. Os búfalos estavam no caminho, e os indígenas se alimentavam deles, e isso é parte da tragédia.
O Novo Mundo é todo ele assim. Nossos países, todos, foram consequência da chegada dos europeus a um continente livre de gripe, varíola e outros clássicos da guerra biológica, mas cheio de pessoas vindas do Estreito de Bering uns 18 mil anos antes. Os brancos tinham planos e os indígenas estavam no caminho, uns tinham armas de fogo e zero consciência da destruição que iriam causar.
Eles tinham vindo por seus motivos, e ninguém ia se colocar no meio, como os indígenas tão duramente descobriram. Valeu pra os aborígenes, para os maori, os zulus, os tupi, os incas, astecas, apaches, comanches e todas as demais nações originárias. E cá estamos.
Os jovens de Reservation Dogs têm as suas questões, ao mesmo tempo parecidas e únicas. Na maior parte, o que eles enfrentam tem a ver com o que são: jovens de uma comunidade formada por várias tribos com leis e crenças completamente diferentes daquelas em que precisam viver. Eles falam o inglês dos jovens americanos, fazem high school e possuem referências culturais americanas, em uma sociedade extremamente liquidificadora. Mas, ao mesmo tempo, eles são dotados deu um sistema operacional completamente diferente, onde espíritos são mais do que reais, onipresentes.
Um deles é o espírito de um guerreiro azarado, que participou da histórica batalha de Little Big Horn, a que massacrou Custer e todos os seus soldados. Ele se chama William Knifeman, e participou da batalha na condição de morto prematuro. O cavalo rolou sobre ele e ele virou espírito, e agora vaga pelas planícies para atazanar jovens guerreiros já soterrados de problemas. William Knifeman e suas aparições já são motivo de sobra pra se ver a série.
Só que tem muito mais. Na sociedade indígena não existe uma geração, e não existe uma família. Existe a tribo, e dela todos fazem parte, querendo ou não. Assim, ao longo dos episódios e temporadas, os adultos vão aparecendo, e se mostrando tão fascinantes quanto William, o espírito. Nesses episódios começamos a entender que os mundos são paralelos, mesmo que não complementares. O nosso mundo industrial está aí, mas aí também está o mundo deles, permeado por mágicas que ignoramos.
Reservation Dogs é generosa, e nos permite ver o que apenas eles veem. E esse olhar que adquirimos, essa ampliação do que consideramos o real é a grande contribuição da série para as nossas vidas.
Extremamente bem criada e narrada, Reservation Dogs me faz pensar no que estamos perdendo por ainda não termos tido a versão Tupi. Eu adoraria. Vocês também?
Uma curiosidade é o fato de eles chamarem a si mesmos de “índios”, e não indígenas. No Brasil não se faz mais isso há tempos. Mas, e cada dia que passa confirma, nós somos, em muitas coisas, bem mais civilizados do que os americanos.
Só vejam.