Indicado ao Oscar de Melhor Maquiagem e Cabelo e um dos filmes japoneses de maior bilheteria de todos os tempos, Kokuho – O Preço da Perfeição (2025) narra uma história de rivalidade, ambição e devoção ambientada no universo do kabuki, tradicional expressão cênica nipônica. Na trama, dois jovens disputam a excelência e a fama como onnagata, ator especializado em interpretar mulheres de maneira rigorosa e estilizada.
Exibido na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, o longa dirigido por Lee Sang-il, cineasta japonês de origem coreana, é baseado no romance homônimo de Shuichi Yoshida. A história companha a trajetória de Kikuo, um jovem filho de um chefe da yakuza e ator amador de kabuki, que testemunha o assassinato do pai durante um ataque de inimigos mafiosos em Nagasaki, em 1964.
Impressionado pelo talento do garoto de apenas 14 anos, o lendário ator Hanai Hanjiro II decide acolher Kikuo depois da morte do pai, introduzindo-o em um universo regido por disciplina extrema, repetição absoluta do gesto e respeito rigoroso à linhagem.

Rebatizado como Toichiro, Kikuo passa a treinar ao lado de Shunsuke, filho biológico de Hanjiro e herdeiro natural da tradicional casa de atores Tanba-ya. Criados juntos, os dois rapazes desenvolvem ao longo dos anos uma relação marcada por parceria, competição e inveja, enquanto se preparam para um dia ocupar o centro do palco.
Quando o mestre adoece, a sucessão se torna inevitável e a tensão entre os ambiciosos aprendizes e pretendentes a herdeiro eclode em conflito. Em meio a escândalos e glórias, irmandade e traições, um deles se tornará o maior onnagata da cena do kabuki.
O protagonista Kokuho é interpretado em duas fases: Sōya Kurokawa, revelação do premiado drama Monster (2023), de Hirokazu Koreeda, vive Kikuo na adolescência, enquanto Ryô Yoshizawa, astro da franquia de filmes épicos Kingdom, assume o papel na fase adulta ⎯ atuação que lhe rendeu indicações aos principais prêmios da crítica japonesa.

O elenco inclui ainda Ken Watanabe, conhecido ator de grandes produções hollywoodianas como O Último Samurai (2003), Batman Begins (2005) e O Rei e Eu (2018). Curiosamente, o astro nipônico atuou também em Cartas de Iwo Jima (2006), de Clint Eastwood, realizador do clássico Os Imperdoáveis (1992) ⎯ western que ganhou em 2013 uma refilmagem japonesa dirigida justamente por Lee Sang-il e estrelada por Watanabe.
O grande destaque de Kokuho ⎯ palavra que significa que significa “tesouro nacional”, título atribuído aos intérpretes de kabuki no Japão ⎯ está na recriação de longos trechos dos espetáculos do repertório dessa arte surgida no começo do século 17 e que mistura teatro, dança e canto. A beleza dos cenários, figurinos e caracterização dos personagens e o rigor estilizado da interpretação dos atores fascinam pela exuberância estética.
O termo "kabuki” deriva do verbo japonês “kabuku”, que significa “inclinar-se” ou “desviar-se” ⎯ no sentido de agir de forma excêntrica, fora das convenções. Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, a mais popular das artes dramáticas tradicionais nasceu do gesto de se voltar para fora da norma ⎯ e de transformar essa inclinação em forma.

Kokuho – O Preço da Perfeição: * * * *
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