O que resta depois da morte? E se for a morte de uma mulher negra? A reflexão abre a narrativa de Louças de Família (Autêntica Contemporânea), primeiro romance da poeta e psicanalista Eliane Marques. Vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura 2024, o livro revisita a herança da servidão doméstica enraizada entre as mulheres negras, costurando memória, ancestralidade e resistência.
No caso de Tia Eluma, cuja morte marca o início da trama, o que fica são contas não pagas, algumas roupas e uma herança involuntária passada de geração a geração. “Louças de Família pode ser tomado como um conjunto de estilhaços das nossas memórias, que de uma forma ou outra ficaram abafadas e enterradas”, afirma Eliane, autora de o poço das marianas (2021), e se alguém o pano (2015) e Relicário (2009).
A partir da perda da tia, a sobrinha Cuandu mergulha nas histórias da família e refaz os caminhos de suas ancestrais — todas marcadas pela herança do trabalho doméstico e por uma trajetória que insiste em se repetir. Mesclando português, espanhol e iorubá, o livro se constrói a partir de múltiplas lembranças, tanto da narradora quanto de outras mulheres da linhagem materna, revelando experiências de serventia, racismo, desigualdades, dores e silêncios profundamente enraizados nas vivências de mulheres negras.
“Gosto muito de dizer que essa forma de composição se assemelha à maneira como nossas ancestrais de matriz africana se posicionam diante da vida — especialmente diante daquilo que, à primeira vista, não pertence ao seu contexto. Na nossa tradição, esses elementos inicialmente estranhos são acolhidos, incorporados e transformados”, explica a autora, natural de Sant’Ana do Livramento, na fronteira do Brasil com o Uruguai – região onde se dá a trama.

A pesquisa de Eliane para o livro lançou mão de recortes de jornais de época e mensagens de WhatsApp para compor a narrativa, algo que a autora também utilizou em e se alguém o pano. Ao incorporar anúncios sobre fugas de pessoas escravizadas, publicados por escravizadores nos séculos 18 e 19, a autora reposiciona essas narrativas em uma lógica crítica, propondo uma nova leitura da história. Além disso, também aproveitou contos e histórias da tradição iorubá.
A vontade de explorar narrativas da própria família permeou as ideias de Eliane durante a pandemia, quando ela publicou relatos de avós, tias e da mãe em um blog. “Essas histórias eram contadas durante almoços, e sempre fui muito atenta a isso, porque já tinha um desejo de escrever um romance, mas ainda não me autorizava. Tudo começou assim, desses registros e espaços fragmentados”, diz.
Havia urgência em transformar as memórias em romance e criar algo que pudesse ir além do alcance habitual de seus poemas. “Precisava escrever um romance com esses estilhaços de histórias que recolhi no meu relicário. Eu tinha uma certa convicção de que o romance poderia circular mais, que essas histórias se tornariam mais sociais, chegariam até as pessoas.”
“Elas formavam o centro da vida da tia Eluma lá no casarão mid-century. Minhatia serviu a mãe da mãe delas, depois serviu a mãe e o pai delas. No final da vida, continuou servindo uma delas, a que ficou na cidade com nome de santa. Louça da família, tia Eluma passou de uma geração a outra.” (p. 86/87)
O título da obra referencia diversos elementos, como as heranças materiais deixadas pelos que se foram e as simbólicas, passadas através da ancestralidade e da oralidade. Em relação ao título, Eliane destaca uma terceira vertente: a herança inventada.
“Como se inventa uma herança? Aqui entra aquilo que é esquecido, que é deixado, aquilo de que sentimos falta, mas não sabemos o que é. Aí entra a autoria, para reinventar essa herança. Louças de Família tem algo de reinvenção, a herança para nós é uma reinvenção de algo do campo do literário”, reflete a autora, destacando a importância da pesquisa histórica e dos detalhes da vida na construção de narrativas, como também fazem Luciana Aparecida, Cidinha da Silva, Conceição Evaristo e Ana Maria Gonçalves.
Assim como louças, roupas e itens diversos, a vivência das mulheres negras dedicadas à servidão doméstica transcorre gerações, algo que se pode notar na narrativa de Cuandu, que internaliza a raiva e a frustração por conta da experiência das mulheres da família. “O fato da Tia Eluma ser doméstica, se relacionar com a Cuandu — que não é doméstica, mas carrega toda uma crítica, um ressentimento acerca da relação da tia com sua empregadora e seu empregador — foi como colocar o dedo na ferida das relações sociais no Brasil”, comenta Eliane.
“O trabalho doméstico é uma herança tanto para aqueles que estão subordinados quanto para aquelas que subordinam. Olha a dificuldade que foi para aprovar leis regulamentando o trabalho doméstico, concedendo direitos para as empregadas. Isso porque é um resquício de algo do qual o Brasil ainda não quer se livrar: dessa herança escravocrata, essa herança de que alguém manda e alguém tende a obedecer. E geralmente, quem está mandando é um homem branco que tem a voz de mando”, afirma.
“Impossível não fazer de mim essa mulher de ódio, para quem apenas devo ter ódio. Apesar desse sentimento condenado pelos bons cristãos e pela boa etiqueta, que sempre têm elogios para as mulheres negras de fala algodoada, também não é por nenhum amor tirânico que arranco do meu corpo estas memórias” (p. 80).

Cuandu parece não medir palavras sobre suas opiniões e ressentimentos. A revolta da personagem vem com naturalidade e sinceridade. “Muitas vezes esse sentimento tem que ficar abafado porque é feio ser um pouco revoltada, é feio ter raiva dessas situações, não se pode ter raiva, tem que ser tudo muito blasé. Cuandu é capaz de dizer aquilo que está reprimido em nós, de dizer claramente que está com raiva”, diz a autora.
Quando questionada se Cuandu traz, em algum nível, semelhanças com Eliane, a autora fala sobre sua percepção externa e destaca a complexidade da criação da narradora. “Trago algo do que dizem da Eliane: a forma meio ressentida, um tanto quanto violenta. Componho ela com estilhaçados do que escuto acerca da Eliane, que me incomodavam. Coloquei tudo isso na Cuandu”, conta. “Quando a narradora ficou formatada, eu meio que me envergonhei dela. Fiquei em dúvida se iria publicar uma narradora com essas características, dizendo aquilo que ela diz. Algo do que dizem da Eliane tem na Cuandu, mas a Cuandu não é a Eliane.”

“Pego os impedimentos e transformo em literatura”
A literatura gaúcha, historicamente, foi e é associada a um imaginário branco, cis e heteronormativo. Para Eliane, essa construção persiste e segue desmotivando escritoras, que precisam ultrapassar questões básicas para, buscar outros desafios. “É difícil ingressar no mercado editorial, especialmente sendo do Rio Grande do Sul, principalmente uma mulher negra. Parece que tu é inexistente como escritora”, afirma.
Em dezembro, Louças de Família recebeu o troféu Alcides Maya, na categoria narrativa longa, da Academia Rio-Grandense de Letras. Na mesma cerimônia em que agradeceu pelo prêmio, Eliane precisou subir ao palco novamente para repudiar uma fala do presidente da entidade, por seu teor racista.
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“Nós acreditamos nesse imaginário que diz: ‘Tu não pode ser uma escritora. Tu não te enquadra’. Nós acreditamos e incorporamos esse pensamento e é muito difícil nos libertarmos dele”, ressalta Eliane sobre as dificuldades que mulheres negras, indígenas e trans encontram no campo da literatura.
Para a autora, o primeiro passo é se libertar do pensamento que impede que os livros sequer comecem a tomar forma. “Faço análise há muito tempo, e nem todo mundo consegue fazer para falar das suas amarras, dessa narrativa que nos exclui da possibilidade de alguma coisa. Eu pego todos esses impedimentos e transformo eles em literatura. Não me coloco em posição de ‘derrubar os impedimentos’, o meu ‘derrubar’ é falar deles, naquilo que é o meu dever, que é a literatura.”

Em novembro, Eliane Marques recebeu o Prêmio São Paulo de Literatura 2024, na categoria Melhor Romance de Estreia, por Louças de Família. Além da premiação em dinheiro, o reconhecimento levará a autora à 39ª Feira Internacional do Livro de Guadalajara, no México, prevista para este ano. “Não acreditei. Quando vi o nome de Louças de Família na lista dos finalistas já me considerei feliz e satisfeita. Isso atinge os meus objetivos: fazer com que meu livro circule”, afirma.
“Foi um feito, uma conquista não individual das mulheres, principalmente das mulheres negras, que estão, sim, inovando a literatura contemporânea”, conclui a escritora, que lançou o livro de poemas Sílex (Editora Fósforo) em março deste ano, e deve apresentar, no primeiro semestre de 2026, seu segundo romance, Guanxuma (Autêntica Contemporânea), que aborda histórias de mulheres quitandeiras no interior do estado.
