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Marco Maggi convida a desacelerar o olhar na Fundação Iberê

Exposição do artista uruguaio propõe reflexões sobre a economia da atenção

Marco Maggi convida a desacelerar o olhar na Fundação Iberê
Foto: Anderson Astor

O aparente vazio do segundo piso da Fundação Iberê sugere uma exposição ainda em montagem, à espera das obras do artista uruguaio Marco Maggi. Ao percorrer o espaço, a mostra La Economía de la Atención revela suas sutilezas e convida o público a refletir sobre os desafios da atenção em um contexto acelerado e repleto de telas.

Foto: Anderson Astor

“A economia da atenção é a que vivemos hoje, com as grandes plataformas buscando captar nossa atenção. Eu utilizo a expressão no sentido contrário, de economizar a atenção, a única forma de resistência que temos para não nos dispersarmos”, afirma o artista, que exibe 12 trabalhos na Fundação Iberê, entre desenhos, esculturas, colagens e instalações, como a mesa de sinuca de La Sociedad Subatómica e suas bolas com desenhos feitos com lâmina (ponta-seca).

Foto: Anderson Astor
Foto: Anderson Astor

Em outras obras, como El Papel del Papel, é preciso se agachar para observar o trabalho minucioso de Maggi a partir de cortes, dobras e sombras em pilhas de papel. A monumentalidade minúscula das formas remete a um conjunto de maquetes, mas Maggi prefere deixar o sentido dos trabalhos em aberto. “Não há uma mensagem, um significado. São estruturas para prestar atenção e, nesse processo, criar empatia em relação à incerteza de não saber o que se está vendo”, diz o artista, que vive entre Punta del Este e Nova York.

Foto: Anderson Astor

A curadora e artista Patricia Bentancur – que será responsável pelo pavilhão do Uruguai na Bienal de Veneza de 2026 – destaca o diálogo da poética de Maggi com o espaço que acolhe a mostra. “A arquitetura de Álvaro Siza, com sua economia formal e sua atenção minuciosa aos detalhes, estabelece com a obra de Maggi uma correspondência que excede a mera empatia para constituir-se em um diálogo estrutural. Ambos partilham uma mesma ética da atenção: a exigência de proximidade, de demora e de leitura cuidadosa”, diz a curadora.

Foto: Anderson Astor

“Diante dos atalhos da velocidade, um olhar pausado pode até ser entendido como uma tecnologia cultural para manter proximidade, refazer o vínculo com aquilo que observamos e reformular a distância entre nós”, completa Bentancur, que define a obra de Maggi como “um aprendizado material da lentidão”.

O artista conquistou reconhecimento internacional ao produzir desenhos abstratos e detalhados, utilizando materiais comuns – papel, plexiglass, papel-alumínio, lápis, entre outros. Em 2001, participou da 3ª edição da Bienal do Mercosul. Em 2015, representou o Uruguai na 56ª Bienal de Veneza. 

Foto: Anderson Astor

Em paralelo à escolha criteriosa de cada suporte, Maggi concebe títulos sugestivos para suas obras, como Miopía Global. Outro elemento que ganha evidência em seus trabalhos é a relação com o desenho, seja nas inscrições com ponta-seca ou em obras como Drawing Machine, em que 24 lápis são fixados à parede por meio da tensão de um conjunto de cordas.

Foto: Anderson Astor

Na conversa com a reportagem sobre a atenção exigida pelas telas e seus impactos nas relações sociais, Maggi provoca: “A única coisa que se compartilha em um café hoje é a conexão de wi-fi”. Ressalta, no entanto, que não tem uma visão nostálgica em relação às tecnologias de comunicação, mas busca valorizar o que chama de “tempo baldio”. “Se não te dás esse espaço e tempo – e sempre que tens tempo livre, pegas o telefone –, obviamente há um tipo de reflexão que será impossível”, observa o artista.

Foto: Anderson Astor
Foto: Anderson Astor

Ao descrever seu processo criativo, Maggi apresenta uma visão que extrapola o fazer artístico, propondo uma relação zelosa com o mundo ao redor: “É preciso ir com calma e cuidado, selecionando muito e poupando a atenção”.

“La Economía de la Atención”, de Marco Maggi
Em exibição até 15 de março de 2026
Onde: Fundação Iberê (Avenida Padre Cacique, 2000 – Cristal – Porto Alegre)
Visitação: de quinta-feira a domingo, das 14h às 18h (última entrada)
Entrada gratuita às quintas-feiras; ingressos entre R$10 e R$30 de sexta a domingo, à venda online e no local

Ricardo Romanoff

Repórter e editor de Cultura na Matinal. Também é tradutor, com foco em artes e meio ambiente, além de trompetista de fanfarra nas horas vagas. Contato: ricardo@matinal.org

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