O escritor Luis Felipe Abreu venceu em janeiro o I Prêmio UERJ de Literatura com a novela São Sebastião, que será lançada pela Eduerj. O segundo livro do autor porto-alegrense, que é sobrinho de Caio Fernando Abreu (1948–1996), vem na sequência de As Rimas Internas (Editora Aboio), publicado em 2024.
São Sebastião conecta duas pandemias recentes: de covid-19, que completa cinco anos neste verão, e da AIDS, que mantém status pandêmico ainda hoje. Na trama, um dramaturgo, no leito de uma UTI, recorda uma viagem de carro com o pai e percorre trechos de sua obra mais importante, um monólogo declamado por São Sebastião, ícone da cultura queer, padroeiro dos enfermos e da cidade do Rio de Janeiro – onde Luis vive desde 2022, atuando como docente de pós-graduação e cursando pós-doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
“A AIDS e a covid-19 são temas sem tanta presença na literatura brasileira, o que é natural pelo tempo de elaboração do trauma, especialmente em relação à covid-19, mas também à AIDS, que tem uma elaboração narrativa ainda vacilante”, reflete o autor, nascido em 1993 – ano em que Filadélfia, filme estrelado por Tom Hanks e Denzel Washington, estreava nos cinemas como uma das primeiras produções a abordar questões em torno do HIV e da homofobia.

A epígrafe de São Sebastião cita Roland Barthes – cuja trajetória foi marcada pela tuberculose – numa espécie de síntese da proposta da obra de recuperar memórias traumáticas coletivas: “Meu corpo é bem mais velho do que eu, como se conservássemos sempre a idade dos medos sociais com os quais o acaso da vida nos pôs em contato”.
A reflexão de Barthes vem à tona a partir da leitura de A Montanha Mágica (1924), de Thomas Mann, e da identificação do autor francês com as experiências em sanatórios do escritor alemão. “Barthes percebe que a experiência dele tem um eco no tempo e na própria ficção”, ressalta Luis, ele próprio ecoando, em São Sebastião, questões que marcaram a vida e obra de seu tio, Caio F. – diagnosticado em 1994 como portador do HIV, que o vitimaria dois anos depois, além de autor de livros e crônicas que abordaram os impactos do vírus na sociedade.
Filho de um dos quatro irmãos do autor de Morangos Mofados, Luis tinha 3 anos quando o tio faleceu e não tem lembranças do convívio com Caio, exceto indiretamente, por meio de cartas deixadas pelo escritor, relatos de familiares e pela literatura – uma influência que se dá de forma consciente e inconsciente.
“As Rimas Internas” mergulha na escrita biográfica e poesia carioca dos anos 1980
A leitura de As Rimas Internas evoca a trama de Onde Andará Dulce Veiga? (1990), segundo e último romance de Caio F. “Esse livro foi tomado como inspiração direta, mas tem ecos que só percebi depois. Não tenho como nem gostaria de negar essas influências da ficção do Caio e dos livros que ele tinha – que se tornaram a biblioteca da família – e acabam impregnando meu trabalho por vias distintas”, conta o autor.

Se na ficção de Caio F. um jornalista investiga a trajetória e o desaparecimento da cantora Dulce Veiga nos anos 1960, em São Paulo, no romance de estreia de Luis a jornalista Luiza é incumbida de viajar ao Rio de Janeiro para biografar Flora Lázár, poeta de atuação marcante na cena literária carioca, que desaparece de modo trágico no fim da década de 1980.
“Flora, para mim, não passava dessa figura oblíqua, que atravessava leituras e conversas, mas nunca chegava a se mostrar presente. Um corpo no mundo, mas distante de mim. E essa separação me preocupava, me preocupa: é a esse corpo estrangeiro que devo dedicar meus próximos dias, semanas ou meses. Causa ou consequência desses anseios, tinha para mim que precisaria inventar duas vidas: uma para Flora e uma nova para mim”, narra Luiza, no começo de As Rimas Internas.
Luis enxerga uma abordagem transversal entre sua atuação como escritor e o percurso acadêmico – ele é graduado em Jornalismo, com mestrado e doutorado em Comunicação, as três formações pela UFRGS: “Sempre estudei literatura, o que contamina minha ficção. No mestrado, pesquisei a articulação de jornalismo e literatura na escrita de biografias, que influenciou As Rimas Internas. Atualmente, no pós-doc, estudo figurações de comunidade e do viver junto na poesia brasileira contemporânea, que também me interessa explorar ficcionalmente”.
A abordagem biográfica da personagem ficcional soma-se ao interesse de Luis pela Geração Mimeógrafo, que ganhou evidência nos anos 1970 e se estendeu até a década seguinte com poetas como Ana Cristina Cesar, Cacaso e Chacal. “Me interessava pensar ficcionalmente essa geração, sobretudo da poesia carioca, com personagens inspirados em figuras reais, mas de forma ambígua, sem se reduzir a elas”, diz o autor.
O formato diário, que organiza o livro em datas entre março e maio de 2016, busca aproximar os tempos de imersão da narradora e dos leitores no universo de Flora L. “Gosto de brincar com a literatura de gênero, disfarçando o arquétipo do detetive na figura de um jornalista”, conta Luis, citando o escritor chileno Roberto Bolaño, autor de Os Detetives Selvagens, como referência de As Rimas Internas.
Seja investigando a cena literária carioca dos anos 1980 ou os paralelos entre crises sanitárias globais, Luis Felipe Abreu ressalta seu interesse pela ficção como modo de ressignificar memórias coletivas. “A literatura oferece formas de reelaborarmos nossas experiências e ofertar outras imagens de mundo”, afirma o autor, que ao longo deste semestre estará envolvido na editoração e lançamento, previsto para junho, de São Sebastião.