A banda Metá Metá, formada por Juçara Marçal (voz), e Kiko Dinucci (guitarra) e Thiago França (sax), convida o cantor e compositor Jards Macalé para um show que une as sonoridades inventivas de um dois ícones da música brasileira e do trio paulista, um dos grupos mais influentes da cena nacional, com sua fusão de rock, free jazz e elementos de matriz africana.
O encontro acontece no dia 6 de agosto (quarta-feira), às 20h, no Salão de Atos da UFRGS, celebrando trocas que começaram há mais de uma década. Em 2013, a banda gravou a faixa Let’s Play That no álbum E Volto pra Curtir, em comemoração aos 70 anos de Jards. Em 2014, o trio e o cantor subiram ao palco para um show em homenagem ao poeta Waly Salomão – parceiro de Jards em clássicos como Vapor Barato, Mal Secreto e Negra Melodia.

O diálogo ganhou consistência em 2019, quando Jards lançou Besta Fera – produzido por Kiko, com participações de Juçara e Thiago – após um hiato de duas décadas sem álbuns inéditos. Parceiro dos integrantes do Metá Metá em diversos projetos, Romulo Fróes assinou a direção artística de Besta Fera e Coração Bifurcado (2023).
“O Jards tem uma obra muito comprometida com a invenção. Seus discos são originais, provocadores, irreverentes. O jeito com que ele toca o violão, pra mim, Kiko, é determinante. É como se fosse João Gilberto com LSD”, afirma Dinucci, usando adjetivos inescapáveis para abordar a obra de Jards e uma criativa definição psicodélica do músico carioca, que completou 82 anos em março. O integrante do Metá Metá, no entanto, rejeita o uso de uma palavra que acompanhou a trajetória de Jards.
“Em sua carreira, Jards ganhou o injusto rótulo de maldito, assim como Itamar Assumpção, Jorge Mautner, Walter Franco, Luiz Melodia e Sergio Sampaio. O que todos eles têm em comum? A ousadia de fazer uma música inventiva, difícil de rotular. Jards é atitude, seu corpo e persona fazem parte da sua obra também. Jards sendo vaiado (no IV Festival Internacional da Canção, em 1969, quando cantou Gotham City), Jards comendo rosas, suas roupas, seu estilo, tudo está incorporado em sua música”, completa Dinucci.
Entrevista com o vampiro

“Tô com saudade do Rio Grande, há dois anos que eu não passo aí. Tá na hora! Vão rolar composições minhas com o Kiko e o Rômulo – que não é do Metá Metá, mas é da turma –, ambos produtores dos meus últimos discos, Besta Fera e Coração Bifurcado”, conta Jards à Matinal, dando pistas do repertório do show.
“O Kiko tem um violão nervoso, neurótico, vigoroso, forte, inventivo, e eu toco o meu violão, que também tem certa nervosidade”, compara o músico, devolvendo adjetivos generosos a Kiko, com quem recentemente formou um duo de violões.
A entrevista com o Vampiro de Copacabana – composição assinada por Jards e Dinucci – é uma oportunidade para revisitar os álbuns recentes do carioca, que deixou em aberto o que entrará no repertório do show em Porto Alegre.
“Besta Fera está ligado a um momento difícil do Brasil, de crise política, institucional e pandemia”, recorda Jards. Se a memória é uma ilha de edição, como dizia Waly, a menção à crise sanitária, que só começaria um ano depois do lançamento do álbum, faz sentido ao resgatar lembranças de anos já “trevosos”, nas palavras de Jards, mesmo antes da eclosão do vírus.
“Eu sou aquele que os passados anos/ Cantando a minha lira maldizente/ Torpezas do Brasil, vícios, enganos/ E bem que os descantei bastantemente/ Canto segunda vez na mesma lira”, ouvimos na faixa-título, que mescla versos de Jards e Gregório de Matos e termina com o premonitório verso “E haja saúde”.
O álbum costura Trevas – outra canção editada por Jards, dessa vez, a partir de um poema de Ezra Pound traduzido por Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Decio Pignatari – e lirismo em faixas como Buraco da Consolação, parceria com Tim Bernardes. Outro destaque é Meu Amor, Meu Cansaço, com letra de Romulo Fróes, que conecta Besta Fera ao álbum lançado quatro anos depois.
Arte de não morrer, o amor é paz, mas vai sempre à luta

“O tema de Coração Bifurcado é o amor, mas o amor como gesto político numa época muito delicada do país, com as pessoas se digladiando, falando mal umas das outras, ódio nas redes sociais, um mal-estar horroroso. As músicas não necessariamente falam de amor, mas têm gestos de amor”, explica Jards, atualizando uma inquietação que antecede os tumultuados anos recentes da política brasileira.
Desde 2003, quando lançou Amor, Ordem e Progresso, o músico defende alterar a frase estampada na bandeira nacional para torná-la mais fiel ao lema positivista que já foi cantado por Noel Rosa – com um acréscimo digno das edições poéticas de Jards: “O amor vem por princípio, a ordem por base/ O progresso é que deve vir por fim/ Desprezaste esta lei de Augusto Comte/ E foste ser feliz longe de mim”.
Com versos como “O amor é paz, mas vai sempre à luta/ O amor tem fel, o amor tem açúcar”, a faixa Amor In Natura abre Coração Bifurcado. Essa canção e A Arte de Não Morrer são parcerias com o poeta José Carlos Capinan, expoente do tropicalismo, com quem Jards assina a clássica Gotham City.
O álbum é dedicado a Gal Costa, que participaria da faixa Simples Assim. “Infelizmente, ela se foi de forma precoce”, lamenta Jards, que preparava uma surpresa para a cantora: “Convidei Gal e Bethânia para o disco, sem falar de uma para a outra”. Maria Bethânia divide os vocais com Jards em Mistérios do Nosso Amor. A canção que teria Gal foi interpretada por Ná Ozzetti.
A faixa-título de Coração Bifurcado, parceria com Dinucci, faz alusão a Exu. Em março de 2022, antes de tocar o álbum Rastilho, no Opinião – naquela mesma noite, Juçara apresentou Delta Estácio Blues –, Dinucci falou da divindade em entrevista à Matinal: “Sempre digo que o Brasil só dará certo no dia em que conhecer Exu, e o brasileiro se reconhecer em Exu. Daí o Brasil vai voar, vai enterrar a cultura racista e escravagista de vez. Por isso fiz a música Exu nas Escolas, gravada por Elza Soares”.
Antes de subir ao palco do Salão de Atos, Dinucci participa de um bate-papo sobre composição, no dia 4 de agosto, integrando a programação organizada pela produtora Juba Cultural e pelo Centro Cultural da UFRGS, que inclui ainda duas sessões de cinema.
Quando: 6 de agosto de 2025, às 20h
Onde: Salão de Atos da UFRGS (avenida Paulo Gama, 110)
Ingressos à venda no Sympla
Comunidade acadêmica da UFRGS tem direito a ingressos cortesia
Atividades complementares:
“Papos Musicais”, com Kiko Dinucci
Quando: 4 de agosto de 2025, às 19h
Onde: Sala Pitangueira, no Centro Cultural da UFRGS (avenida Paulo Gama, 110)
Exibição do documentário “JARDS” (2013), de Eryk Rocha
Quando: 5 de agosto de 2025, às 16h
Onde: Sala Redenção – UFRGS (avenida Paulo Gama, 110)
Sinopse: A vida e a obra do cantor, músico e ator Jards Macalé é celebrada neste documentário. O artista carioca cresceu rodeado de música, estudou compositores eruditos, mas sempre representou a música popular brasileira. Conheça também o processo criativo do último álbum do autor de canções como Vapor Barato, Gotham City e Movimento dos Barcos e sua destreza com diversos instrumentos musicais.
Exibição de “Breve Em Nenhum Cinema” (2015), de Kiko Dinucci
Quando: 5 de agosto de 2025, às 19h
Onde: Sala Redenção – UFRGS (avenida Paulo Gama, 110)
Sinopse: Dois personagens errantes caminham por uma cidade devastada pela especulação imobiliária à procura de salas de cinema no centro de São Paulo, mas só encontram igrejas evangélicas, cinemas pornô, estacionamentos e ruínas.
Relembre as entrevistas:
Kiko Dinucci apresenta “Rastilho”
Juçara Marçal abarca sonoridades diaspóricas em “Delta Estácio Blues”
Entrevista com Thiago França sobre a Espetacular Charanga do França