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"Pluribus" é o paraíso antidepressivo

Série na Apple TV é do mesmo criador de "Breaking Bad" e "Better Call Saul"

"Pluribus" é o paraíso antidepressivo
Apple TV/Divulgação

Imagine que você é o sujeito que foi lá e criou a série Breaking Bad, um dos maiores exemplos de série que acerta na veia. Não satisfeito, você vai lá e cria Better Call Saul, spin-off de Breaking Bad que chegou, em muitos momentos, a superar a série-mãe em dramaturgia da era do streaming.

E aí, você se pergunta, coçando um bicho de pé imaginário. E aí?

Bom, aí você vai lá e cria Pluribus, a nova melhor série do ano (lançada no final de 2025), até aqui ao menos, na minha, na sua, na nossa Apple TV.

Pluribus começa com mais uma invasão alienígena da Terra, e coloca na pauta um tema caro a todos nós: o que é a felicidade humana? Do que ela é feita, para que serve e onde se quer chegar com essa busca por algo tão efêmero quanto indefinível?

Sendo preciso, nem sempre a humanidade buscou a felicidade como eixo de deslocamento na vida terrestre. O homem antigo devia estar preocupado demais com a alimentação para pensar em algo tão lúdico. O homem medieval – no Ocidente, onde vivemos, ao menos – estava preocupado mesmo era com a salvação da sua alma imortal.

A ideia de buscar satisfação dos seus desejos, a tal felicidade, é uma coisa moderna, que surge com a sociedade industrial, e associada a consumo e à ideia de que felicidade é algo que se compra, se possível, no crédito. Pluribus provoca a questão de fundo que é: e se todos formos felizes ao mesmo tempo agora, isso não seria ótimo?

Todo mundo meio que concorda (na série), menos uns poucos, em particular a antipática e nada feliz Carol Sturka, uma escritora de algum sucesso que resolveu morar justamente na insossíssima Albuquerque, Novo México (onde se passava Breaking Bad, lembrem). Ninguém vive em Albuquerque – com aquela infernal arquitetura “pueblo-decô” – porque quer ser feliz, isso é certo.

Para nós, espectadores, a série propõe uma mirada de lado sobre o que, afinal, nos torna humanos. Se somos um animal político – e quem disse foi Aristóteles –, somos mais felizes no conjunto ou como indivíduos? Precisamos, acima de tudo, preservar a nossa condição sofrida e insatisfeita como forma de manifestar a nossa condição humana?

Ao longo de milênios, muitas diferentes entidades tentaram definir o que era o ideal para a humanidade. As religiões vêm tentando isso desde que se organizaram e criaram hierarquia, livro-texto e capacidade de arrecadar fundos. Os partidos políticos surgiram da ideia de que era preciso organizar a nossa baderna em torno de alguma ideologia, e assim viveríamos melhor. O comunismo propunha abolir a propriedade e nos libertar do jugo do desejo de posse. O capitalismo garante que é comprando que se recebe. O budismo diz pra gente sofrer muito, mas muito mesmo, porque é assim que se chega lá. A Smart Fit acha que é malhando. E você, estimada/o leitora/o?

Não vou spoilerizar, que não é a nossa missão, mas somar um elemento de reflexão sobre o assunto, vindo direto de um excelente poeta americano do século 20, Robert Frost. No seu poema Mending Wall, ou “Consertando os Muros”, ele já começa achatando:

“Something there is that doesn't love a wall, that it wants it down.” ("Algo há que não ama um muro, e que deseja colocá-lo abaixo.")

Se não sei definir o que nos faz feliz, acho que sei definir o que não nos faz: limites, restrições, imposições e muros em geral.

Indo além, ele diz:

"Before I built a wall, I would ask to know, what I was walling in, and walling out”. ("Antes de fazer um muro eu perguntaria, o que estou murando para dentro, e murando para fora.")

Somos animais que gostam de escolher, e isso nos define. Mais do que felicidade, queremos poder sermos nós mesmos os responsáveis por tudo, inclusive o que der errado.

Na linha contrária estão os fabricantes de antidepressivo, que acham que a gente não deve se preocupar com besteiras como muros, e com praticamente nada mais. Melhor tomar e sorrir do que ficar por aí se preocupando com o tudo, o nada, a dor de cotovelo e os carnês.

Pluribus é sobre isso e, se fosse vocês, eu via. A série é tão inovadora que achou um jeito de trazer o Paraguai – o Paraguai – pra dentro da história. Isso, estimados leitores, nunca tinha acontecido antes.

Por todos os motivos, vejam.

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