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Quadrinhos na esquina

Livraria na Cidade Baixa resgata a tradição dos bares de cartunistas e se consolida como um espaço de convivência e criação coletiva em Porto Alegre

Quadrinhos na esquina
Loja da Brasa Editora é ponto cultural no bairro Cidade Baixa | Foto: Divulgação / Lobo

Localizada na esquina das ruas José do Patrocínio e Luís Afonso, em um imponente casarão de dois andares, a loja da Brasa Editora é muito mais do que o nome sugere. Além de livraria de calçada, o espaço também funciona como bar e ponto cultural multifacetado, abrigando uma ampla variedade de eventos e expressões artísticas em Porto Alegre.

Logo na chegada, o visitante pode ser recebido por Lobo, 55, editor veterano de quadrinhos e sócio do local. “As pessoas da rua passam, entram e gostam do ambiente. Acham legal ter a possibilidade de uma livraria de quadrinhos. Não é tão comum de ver por aí”, comenta o editor, que prefere ser chamado pelo apelido.

Em novembro deste ano, a editora ficou entre os vencedores do 37º Troféu HQMIX — a principal premiação dos quadrinhos brasileiros — nas categorias “Projeto Editorial”, com a publicação da coletânea Samba: Música Popular em Quadrinhos, e “Editora do Ano” pela segunda vez consecutiva.

A presença de um espaço como a Brasa se torna relevante diante do cenário atual de leitura no país. A 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada em 2024, mostra que, pela primeira vez, há mais brasileiros que não leem livros (53%). Em contrapartida, o levantamento Cultura nas Capitais, publicado em 2025, revela um panorama mais otimista em Porto Alegre: 72% dos moradores da cidade leram pelo menos um livro nos últimos anos — frente a uma média nacional de 62%.

Nesse contexto, as livrarias deixaram de ser apenas pontos de venda, tornando-se ambientes de resistência cultural, ao promover experiências presenciais por meio de eventos, debates e encontros que aproximam leitores, autores e a comunidade literária.

O bar dos cartunistas

A Brasa Editora nasceu do encontro entre Lobo e a designer Samantha Desimon, 36, com a proposta de produzir quadrinhos que refletissem a diversidade e a riqueza do território nacional.

No início, a editora se acomodava em um pequeno escritório no apartamento da dupla, no bairro Menino Deus. Foi ali, entre caixas e livros, que publicaram seus primeiros títulos — Brega Story, de Gidalti Jr., e Lovistori, de Lobo e Alcimar Frazão — obras que deram visibilidade nacional ao projeto. Pouco depois, somou-se ao grupo o cartunista Rodrigo Geraldi, que passou a assinar a identidade visual da editora nas redes sociais.

Com o aumento da equipe, o entra e sai no apartamento se intensificou, e o espaço limitado acelerou o antigo sonho de abrir uma livraria-bar. “Quando você vai falar de criatividade, criação de quadrinhos, geralmente essa conversa se dá no bar”, comenta Samantha.

A escolha pela Cidade Baixa veio pelo perfil cultural do bairro. “É um lugar democrático, em que muitas tribos diferentes se encontram”, explica Lobo. A livraria abriu as portas em julho do ano passado, ocupando apenas o segundo andar do casarão. Um ano depois, expandiu para o térreo: hoje, o andar superior abriga as atividades editoriais, enquanto o piso inferior reúne a livraria e o bar.

A Brasa Editora reúne experiência de bar e livraria de calçada | Foto: Eduardo Barcelos

“A Brasa não é uma coisa que surge do nada”, indica Fabrício Silveira, professor, pesquisador em Culturas da Comunicação e cliente fiel da livraria, apontando para uma longa e talvez não tão conhecida tradição de bares em Porto Alegre frequentados por artistas gráficos. “Os cartunistas da velha guarda porto-alegrense se reuniam antigamente em um lugar chamado Tutti Giorni, que ficava na escadaria da Borges”, diz, se referindo à parte superior do antigo Viaduto Otávio Rocha, situado na Avenida Borges de Medeiros, no Centro Histórico da cidade.

O chamado “bar dos cartunistas”, comandado por Ernani Marchioretto, o Nani, reunia quadrinistas, escritores, jornalistas e artistas de diferentes áreas. Anos depois, o Café Cartum, na Cidade Baixa, assumiu papel semelhante, tornando-se também um ponto de encontro da cena gráfica da capital. “Fechou o Tutti, fechou o Cartum, e agora a Brasa assumiu esse lugar”, comenta Fabrício. “Ela é um resultado e um incentivo ao aumento dessa demanda.”

O antigo bar do Nani serviu de inspiração direta para o projeto da Brasa. “Havia a vontade de ter novamente um espaço para os quadrinistas se encontrarem”, resume Samantha.

De livros acadêmicos a jogos de mesa

Segundo o levantamento Mapeando a Cena Literária do RS, realizado em 2025, pelo Nonada Jornalismo, 40,7% das livrarias apontam como principal desafio a concorrência com o mercado de varejo online, especialmente com gigantes como a Amazon.

Guilherme Miorando, quadrinista, pesquisador e doutor em Ciências da Comunicação, observa dois movimentos distintos: um que se coloca contra a Amazon e valoriza a experiência das livrarias de bairro, e outro formado por editoras que optam por trabalhar exclusivamente com a plataforma.

Segundo ele, abrir o espaço da livraria para eventos, lançamentos, bate-papos e exposições é uma estratégia fundamental para garantir a sustentabilidade do empreendimento: “Quanto mais diversificação de possibilidades, melhor para o negócio. Fica mais saudável, mais fluido, traz o público novo e fideliza o antigo”.

Lobo argumenta que o bar é um ambiente propício ao compartilhamento de ideias e que a Brasa busca justamente acolher diferentes linguagens, indo além das histórias em quadrinhos. “Quando falamos em um espaço de troca, é um espaço para desenvolvimento de ideias, para criação, para encontrar pessoas, conhecer gente nova. É essencial ampliar seu horizonte, conversar sobre algo que não conversaria, assuntos que você não domina. Enfim, ampliar sua possibilidade de mundo”, completa.

Lançamento do livro Maiúscula, da editora Libretos | Foto: Divulgação / Lobo

Desde a ampliação, o andar térreo da Brasa tem sido palco de uma programação variada. O espaço já recebeu encontros de jogos de tabuleiro, cartas e RPG, apresentações musicais em vinil, batalhas de poesia como o Slam Farofa — que contou com a presença da vereadora Atena (Psol) — e, claro, lançamentos de quadrinhos de diferentes editoras, entre elas a Hipotética, também de Porto Alegre.

“Publicar quadrinhos é uma parte da função; a outra é vender, colocar o livro em espaços acessíveis para o público”, comenta Fabiano Denardin, editor da Hipotética, ressaltando a importância de um local para fortalecer laços dentro da cena independente e aproximar as obras dos leitores.

Fabrício Silveira também lançou seu livro, O Exterminador do Futuro, no local. Entretanto, o professor demonstrou certa preocupação com o perfil dos leitores: “É um livro acadêmico, meio de teoria, meio de filosofia, sobre um autor relativamente desconhecido”. Lobo, por sua vez, tranquilizou-o, destacando que a proposta da livraria é também aumentar a diversidade de frequentadores no local: “A casa tem uma identidade, mas ter uma identidade não exclui outros públicos”.

Livraria conta com mesa de lançamentos da editora e card com desenho de Rodrigo Geraldi | Foto: Eduardo Barcelos

Construindo o futuro coletivamente

Além das atividades culturais, a Brasa também tem investido em ações formativas. Os principais destaques do segundo semestre de 2025 foram o curso ministrado por Lobo, O Poder Didático das Histórias em Quadrinhos, e a oficina de desenho realizada pelo quadrinista italiano Ivo Milazzo.

Samantha reforça que o próximo passo é ampliar a comunicação com o público e mostrar que o espaço está aberto para uso e agendamento de encontros regulares, sem cobrança. Mais do que isso, ela enfatiza a importância de manter o ambiente democrático, seguro e criativo, mesmo diante das dificuldades locais. “A repressão da manifestação cultural em Porto Alegre é muito pesada. A gente não tem autorização para fazer carnaval de rua, por exemplo”, critica. “É preciso ocupar o espaço, fazer com que ele tenha vida.”

Ainda assim, a crise de leitura afeta o mercado editorial como um todo. Lobo afirma que somente por meio de políticas públicas é possível melhorar esse cenário. “Os números mudam um pouco, mas a realidade é que o nosso país não investe em leitura”, analisa. “Os quadrinhos poderiam ser um belo aliado para a gente melhorar essa situação no Brasil.”

Reportagem produzida para a disciplina de Fundamentos da Reportagem do curso de Jornalismo da Fabico/UFRGS. Publicada originalmente aqui.

Texto da disciplina Fundamentos da Reportagem 2025/2 da Fabico/UFRGS | Orientação: Professora Thaís Furtado | Arte: Pedro Demarco | Editoração: Evelise Machado, Marina Terres, Mariana Pugens e Mirela Ferrari

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