Nesta terça-feira (17/3), às 19h, o Instituto Ling inaugura a exposição Dias Normais, de Shirley Paes Leme. A artista, que cresceu entre Goiás e Minas Gerais, e está radicada em São Paulo, tem uma trajetória de mais de 40 anos nas artes visuais com uma produção que lida com sutilezas do tempo e da vida cotidiana, utilizando meios tecnológicos e tradicionais. A exposição tem curadoria de Tálisson Melo e, no dia da abertura, artista e curador se encontram para um bate-papo aberto ao público.
A mostra reúne trabalhos que atravessam diferentes linguagens e suportes, como luz, vídeo, metal, resíduos urbanos e esculturas em bronze, produzidos a partir de 2014. Um dos destaques da exposição no Instituto Ling é a instalação Duração dos Dias, conjunto de 150 esculturas únicas, que resultam de velas derretidas após 21 dias, cristalizadas em bronze dourado, sobre uma mesa preta.
Matinal – O que o público pode esperar de Dias Normais?
Shirley Paes Leme – O público vai encontrar uma instalação onde o tempo, a memória, a luz e a literatura estão presentes. Em alguns trabalhos, a luz aparece como elemento da natureza, mas também como o elemento que pode matar – a luz que nos fascina também é uma luz que está presente nos bombardeios e nas guerras, tão visível hoje no nosso mundo.
Em uma entrevista, disseste tentar "capturar o incapturável". Poderia falar um pouco mais sobre essa sutileza que marca a tua produção?
Em toda minha trajetória, tenho lidado com conceitos do tempo, do espaço, da arquitetura e da literatura, rememorados pelos resíduos, pelos rastros de pequenas coisas do cotidiano. Como, por exemplo, a fumaça de uma vela ou lamparina, que é apreendida em uma superfície do papel ou de uma tela. Esses pequenos momentos, pequenos milagres do cotidiano, eu registro e congelo num tempo. Os trabalhos que eu apresento no Instituto Ling têm relação com essas coisas. São trabalhos de diversos períodos, mas que tratam do mesmo assunto e que têm diversas maneiras de serem apresentados: pode ser uma fumaça da lamparina, como também a fumaça apreendida em filtros de ar condicionados de carros que circulam pela cidade.

Como essa relação com os rastros e marcas surge no teu processo de trabalho?
Quando eu era criança na fazenda dos meus pais, não havia luz elétrica, então a presença da lamparina era constante, e eu era fascinada pela chama. Como para qualquer criança, o fogo é misterioso. Como disse [o filósofo Gaston] Bachelard, o fogo é o maior fazedor de imagem, ele ativa a imaginação. Então a chama de uma lamparina ativava a minha imaginação e eu tentava capturar a fumaça que saía dessa chama, mas ela não fixava no papel. Até que, com muito tempo de processo de trabalho, consegui chegar em uma substância que, aplicada no papel, consegue apreender a fumaça. E isso me fascinou. Me fascina até hoje a possibilidade de capturar algo que você não retém entre os seus dedos e na sua mão – como a água, que já usei em outros trabalhos, o vento, a fumaça, a brisa. São elementos muito importantes que estão presentes no meu trabalho.
Curadoria: Tálisson Melo
Abertura: 17 de março, terça-feira, às 19h, com bate-papo entre a artista e o curador
Inscrição prévia e gratuita para o bate-papo pelo site www.institutoling.org.br
Visitação: até 6 de junho, de segunda a sábado (exceto feriados), das 10h30 às 20h, com entrada franca
Instituto Ling (Rua João Caetano, 440 – Três Figueiras – Porto Alegre/RS)