
É a economia, mané!
Em tempos disruptivos, tudo muda, da calda de chocolate aos indicadores que importam na avaliação da economia de um país, passando pela terminologia do futebol. Marcação sob pressão na saída de bola virou marcação alta. Ataque agora é último terço. E assim vamos rezando conforme as novas cartilhas. O negócio é quebrar paradigmas. Quem percebe tudo isso por estar à frente, tende a ser visto como retrógrado e antimoderno.
Assim, nessa batida psicodélica, tudo que era bom deixa de ser tão bom e suscita novos alertas e posturas: num dia ovo faz mal, no outro é a salvação do galinheiro e da saúde perfeita. Talvez por isso um cidadão pós-moderno, diante de qualquer recomendação dogmática como andar a cinco quilômetros por hora, pondera: “Vou esperar o próximo artigo da Nature”.
Quando a direita estava no poder, os indicadores que contavam para determinar o sucesso do governo eram taxa de crescimento do PIB, inflação controlada, valor do dólar, desemprego e a renda média da população. O atual governo tem PIB positivo, inflação controlada, o mais baixo desemprego da série histórica, dólar caindo e renda média subindo.
Um sucesso? Segundo a direita, um fracasso retumbante e alado. Agora a taxa Selic – que está alta, embora tenha começado a cair com a velocidade de uma pluma –, é o que conta, e também a percepção do mercado internacional sobre o Brasil, que seria ruim, a qualidade do STF, considerado ditatorial, e o futebol do Corinthians, em fase muito mais ou menos já faz algum tempo.
Desemprego baixo virou inimigo público por encarecer o custo do trabalho e provocar inflação, obrigando a subir a Selic para manter a danada dentro da meta. Sabe-se que a economia é uma ciência quase tão precisa quanto a astrologia. Cada escola econômica, porém, detém a verdade das métricas, dos remédios para todos os males e dos tratamentos de choque.
Dólar subindo dava manchete em todos os jornais e provocava previsões catastróficas de especialistas com ar lúgubre e rosto plácido. Dólar caindo dá nota de rodapé e poucas teorias de longo alcance. A direita preferia Selic baixa, inflação dando pinotes, PIB esbelto, desemprego alto e renda média da população esmagada pela necessidade de amordaçar o salário mínimo.
Não é por acaso que muitos desses experts de olhos parados defendem a imperiosa necessidade de congelar o salário mínimo por alguns anos.
Presume-se que os gastos públicos cairiam, o custo do trabalho ficaria mais barato, a inflação tomaria algum tranco e o PIB cresceria. O efeito perverso seria o achatamento da renda média da plebe rude e brava.
Dólar baixo é bom para importadores e ruim para exportadores. A unanimidade é cara e independe da taxa de câmbio. O jeito é deixar na média. A disrupção é tanta que um lema da direita nos anos 1970 virou slogan da esquerda: liberdade de expressão, sim, mas com responsabilidade.
Deve ser por isso que o melhor atacante do Internacional é o lateral Bernabei, que avança como um leão e defende como um cordeiro.
Donald Trump, o neoliberal, adota o protecionismo. Lula, o estatizante, prega a abertura dos mercados e a redução de tarifas.
É a economia, mané!