E se “Hamlet” tivesse sido escrito pela mãe?
Se William Shakespeare tivesse ficado ao lado da esposa e dos filhos na pequena Stratford em vez de ir para Londres, dificilmente teríamos conhecido sua genialidade.
A perda para as artes seria imensurável.
No belíssimo filme Hamnet – A vida antes de Hamlet, a diretora Chloé Zhao explora a ideia de que a clássica peça Hamlet nasceu do luto de Shakespeare após a perda do único filho homem. Baseado no romance Hamnet, de Maggie O’Farrell, que também assina o roteiro, o longa é uma ficção, mas sabe-se que William Shakespeare de fato teve três filhos – duas meninas e um menino que morreu ainda criança – e que, em algum momento, deixou a família no interior para se dedicar ao teatro na capital inglesa. Hamlet, a peça, foi lançada poucos anos depois da morte do garoto, que em registros históricos aparece ora como Hamnet, ora como Hamlet.
No filme, William vai a Londres por sugestão da esposa, no cinema batizada de Agnes e interpretada brilhantemente por Jessie Buckley, que levou o Oscar de melhor atriz neste ano. Em uma das cenas após a morte do filho, quando o pai retorna, a mãe joga na cara dele que ele não sabe o que aconteceu porque ele não estava lá. Ele não estava lá. Estava em Londres tentando viver do teatro.
Não sabemos detalhes reais da vida de William Shakespeare e sua esposa, Anne Hathaway, mas eis um roteiro nada original: pais que abandonam filhos e filhas das mais diversas formas.
Muitos saem de casa. Outros permanecem, estão lá, mas é como se não estivessem. Não sabem a fruta preferida da criança, que número ela calça, qual o nome da professora, quem é o melhor amigo, quantas gotas de paracetamol devem ser administradas em caso de febre.
Nem todo pai, mas sempre um pai. As mães, salvo exceções, sempre sabem.
Escolhas
E se a mãe do pequeno Hamnet tivesse tido a oportunidade de dar vazão à sua dor por meio da arte?
No longa, Agnes não parece ter vontade ou talento para as artes. Tinha outras habilidades e interesses, entre eles, a própria maternidade. E é bom que a parentalidade seja uma escolha.
A questão é: quantas mulheres têm essa escolha? E quantas, mesmo escolhendo ter filhos, contam com o suporte necessário para se dedicar também a uma produção criativa ou a qualquer outro desejo, seja de carreira ou lazer?
Se Shakespeare tivesse ficado em casa, não conheceríamos Hamlet, Romeu, Julieta, Macbeth, Otelo.
Uma perda imensurável, repito.
E me pergunto: quantas mulheres geniais ficam pelo caminho, perdidas entre a sobrecarga das tarefas domésticas e o peso de um maternar solitário?
Uma perda imensurável.
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