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✉️ E se o Brasil virar a Argentina?

Tudo É Gênero #55

✉️ E se o Brasil virar a Argentina?
Painel com tirinha da Mafalda, em uma estação de metrô em Buenos Aires | Acervo pessoal/2008


Medo do Brasil virar a Argentina

Depois de cinco gestões petistas, o Brasil não virou a Venezuela. Mas pode virar a Argentina, caso Flávio Bolsonaro vença as eleições deste ano.

Não a Argentina que julgou e condenou seus torturadores e tem nas Avós da Praça de Maio o maior símbolo da luta por justiça pelos crimes cometidos por militares na ditadura. Nem o país da Mafalda, a menina de sensibilidade aguçada e olhar crítico e perspicaz. Mas a Argentina da extrema direita, que desde o início da gestão de Javier Milei, em dezembro de 2023, só acumula derrotas para o povo. Afrouxamento das leis trabalhistas, desemprego lá no alto, cortes na saúde, recorde de suicídios e um terço da população na pobreza.

A coordenadora econômica da campanha bolsonarista, Daniella Marques, já deixou claro que a agenda econômica de Flávio é inspirada no governo Milei. Como se já não fosse suficientemente ruim, o alinhamento dos dois vai além da pauta da economia: o presidente argentino esteve no Brasil para o lançamento da candidatura do senador, na esperança de a América do Sul ter mais um chefe de estado que, assim como ele, seja capacho de Donald Trump.

No país que serve de modelo para o Tariflávio, tem empresa em crise oferecendo frango para pagar os funcionários. A ideia estapafúrdia quase virou lei na Argentina: a primeira versão da reforma trabalhista de Milei autorizava o pagamento de salário com produtos ou alimentos.

Direitos reprodutivos, cultura e memória

De nação que impulsionou a maré verde da legalização do aborto no continente, a Argentina amarga perdas de direitos de mulheres e meninas. Na última segunda-feira, Dia da Ação Global pelo Aborto Legal e Seguro, as argentinas organizaram um pañuelazo, protesto marcado pelo uso dos lenços verdes, para denunciar o esvaziamento das políticas de saúde sexual e reprodutiva, que sofreram um corte de 57% no orçamento, segundo o jornal Página 12.

Essa gente que odeia as mulheres também odeia a cultura. Durante o Festival de Cinema de San Sebastián, na Espanha, a diretora e atriz argentina Dolores Fonzi denunciou o desmonte do cinema e de outras artes no seu país. Fonzi dirige e atua no filme Belén, representante argentino no Oscar de 2026 e baseado na história real de uma mulher que saiu presa do hospital após ter chegado com hemorragia – o caso impulsionou o debate sobre a descriminalização do aborto na Argentina.

“A cultura é a memória e a identidade dos povos, é a alma. Gente desalmada quando governa pretende matar o pouco de alma que resta”, disse Fonzi.

Conhecemos bem esse filme. Tivemos uma prova de como um Bolsonaro trata a cultura, quando, entre os anos 2019 e 2022, não tínhamos sequer um ministério dedicado ao setor.

A família bolsonarista despreza as artes ao mesmo tempo em que se posiciona como a grande guardiã da liberdade de expressão. No plano de governo de Flávio, ele promete um “tesouraço na censura”; na prática, chega à reta final do primeiro turno beneficiado por decisões do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que respondem a pedidos de remoção de conteúdos publicados por opositores, conforme reportagem da Agência Lupa.

Os ataques a jornalistas também fazem parte do arsenal de Flávio neste período eleitoral. É a mesma cartilha de Milei, Trump e, claro, de Jair Bolsonaro. 

Isso tudo sem contar o negacionismo climático, os deboches com as vítimas da covid, as falas machistas e homofóbicas, os ataques à democracia. Quatro anos depois do fim do pesadelo da gestão de Jair Bolsonaro, com Milei bem ao nosso lado tocando o terror, cá estamos nós, de novo, tendo que defender o básico.

As opiniões emitidas pela autora não expressam necessariamente a posição editorial da Matinal.

Essa história de o Brasil virar a Argentina me lembrou de uma tirinha da Mafalda que foi a gota d'água para Quino deixar o país e exilar-se na Europa. Quer saber mais sobre esse caso? Assine a Matinal e leia hoje mesmo a íntegra da newsletter, que tem ainda uma curadoria de notícias sobre gênero e outros temas afins.