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✉️ Esther Grossi, uma professora pop

Newsletter do Juremir #210

✉️ Esther Grossi, uma professora pop
Esther Grossi na sua aula magna de 90 anos

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Esther Grossi, uma professora pop

Na última quinta-feira, fomos até a Universidade Federal das Ciências da Saúde de Porto Alegre, na Sarmento Leite, para ouvir a “aula magna” de Esther Grossi, que completava 90 anos de idade. Foi, claro, um show.

Esther especializou-se no ensino de matemática, saiu pela europa em busca de aprofundamentos, sensações e novas experiências. Ao longo do seu percurso sem tédio, interagiu com Jean Piaget na Suíça, estudou na França com Gérard Vergnaud, consagrou o Geempa – o Grupo de Estudos sobre Educação, Metodologia da Pesquisa e Ação –, teve uma gestão marcante como secretária de Educação de Porto Alegre na administração do PT e agitou a província com a sua criatividade. Levou a Paris quinze meninos e meninas da periferia da capital gaúcha. Viagem inesquecível. Morávamos lá na época.

Na aula magna de Esther Grossi, uma das remanescentes daquela viagem deu o seu depoimento emocionado e emocionante. Garantiu que foi um divisor de águas na vida. A própria Esther contou das impressões de alguns daqueles jovens no retorno: a alegria de pela primeira vez ter uma cama só para si.

Fiquei ouvindo a aula de Esther com atenção. Ela insistiu sobre um ponto: não se ensina conceito a conceito, mas imergindo numa constelação conceitual. Exemplificou com um caso: alunos que não aprendiam cor a cor, mas deram um salto quando mergulhados numa explosão colorida. Destacou também a importância do trabalho de grupo: colega aprende com colega. Há coisas que se o professor diz, ou corrige, ferem o aluno, mas se vem do colega, ajudam a vencer a dificuldade. Lembrou uma frase de Piaget sobre professor prestar mau serviço a aluno quando queima essa etapa ou lógica.

Uma tosse de refluxo me impediu de ir ao brinde de aniversário na casa da Esther. A alegria e o amor à vida que ela espalha são mobilizadores. Participei de atividades com ela, entre as quais uma vinda de Edgar Morin a Porto Alegre. Poucas vezes vi alguém com tanta potência.

Ao final da aula magna, ex-colegas seus, ex-alunos, parceiros de caminhada, enfim, pediram a palavra. Pipocaram depoimentos apaixonados realçando uma história de vida em torno da educação.

Esther organizou eventos mil, publicou livros (saí da sua aula com um exemplar do seu Mesa Sutra, receitas do que ela ama, inclusive merengues), viajou, aprontou, incomodou conservadores, fustigou reacionários, enfrentou o conformismo, amou. Esse verbo no passado é só para fazer o balanço das suas nove décadas. Ela continua conjugando tudo no presente e no futuro.

Foi deputada federal pelo PT, empoderou-se quando a misoginia ainda era mais forte do que hoje, combateu os bons combates, não se eximiu, não se escondeu, coloriu seus cabelos como um arco-íris para delírio da mídia.

Houve uma época em que Cláudia, que também estudaria com Vergnaud, lhe enviava tintas de Paris. Em algum momento, alguém a chamou de furacão Esther. Mas furacões causam estragos. Esther sempre traz bons ventos.

Com ela, ventos do norte movem moinhos do sul. E vice-versa.

Esther é pop por mérito e biografia.

Princípios pedagógicos