Problemas reais
Um grupo de colegas almoça na calçada de um restaurante no centro da capital. Discutem sobre a dificuldade de mensurar o trabalho de freelancer. Serviços são menos tangíveis do que produtos, que têm custos e um tempo de produção facilmente mensuráveis.
Quantas horas são necessárias para marcar e fazer as entrevistas? E captar as imagens? E a edição? E os ajustes que o cliente vai pedir? E se ele pedir para fazer as publicações nas redes? E se ele pedir só mais um textinho de divulgação? Se eu cobrar X, calculando um valor adequado pelas horas estimadas de trabalho, sei que vai ter gente cobrando X dividido por 2 e vou perder o cliente.
É um problema real.
No meio da conversa, um jovem negro se aproxima vendendo balas. Pede ajuda para sustentar a família. Ninguém tem dinheiro em espécie, todos lamentam, mas hoje não podem ajudar.
O jovem olha para as sobras de comida no prato de um deles: umas duas colheradas de salada de maionese e um pouco de carne, aquela que fica próxima à gordura. Pergunta se pode comer.
Os quatro se entreolham, hesitantes. Estariam incomodados? Constrangidos, talvez? O dono do prato assente, e o jovem abre uma sacola de plástico branca.
“Peraí, vamos pedir algum suporte, um prato descartável pro garçom”, diz uma das mulheres sentadas à mesa.
“Não, não, daí eles vão querer cobrar, vai assim mesmo.”
O jovem inclina o prato, empurrando os restos frios de comida para dentro da sacola, agradece e pergunta se não querem uma bala em troca. Diante da negativa, segue seu rumo.
“É por isso que eu não gosto de sentar aqui na rua”, diz um dos colegas.
Por que mesmo? Os quatro pareciam mais desconfortáveis do que o jovem faminto. O que, afinal, os incomodou? Sentem vergonha? Culpa? Para que serve essa culpa?
Ainda reverbera em mim a cena do jovem se afastando com a maionese balançando dentro daquela pequena sacola de plástico tão frágil quanto a situação de quem tem fome. Ele seguiu caminhando pela Andradas, onde tantos outros trabalhadores da região ainda almoçavam com talheres em mãos, tomavam o copo de refri grátis e comiam a sobremesa inclusa. Onde seguiam passando carros, patinetes e pedestres apressados.
Tudo igual. O lamento dos quatro colegas não serviu para nada.
Um homem com fome não é capaz de fazer o mundo parar.
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