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✉️ Futebol e violência doméstica

Tudo É Gênero #50

✉️ Futebol e violência doméstica
Campanha da organização britânica Women's Aid de 2022 já chamava a atenção para a relação do futebol com a violência contra as mulheres | Reprodução YouTube

He’s coming home: futebol e violência doméstica

Mais uma vez, o refrão “It’s coming home” foi ouvido em um jogo da Inglaterra, que voltou para casa sem a Copa de 2026. A letra é de 1996 e marcava o retorno do futebol para seu país natal naquele ano, quando os ingleses sediaram a Eurocopa. Os “30 anos de dor” mencionados na canção já são 60, tempo decorrido desde o último – e único – título mundial dos ingleses.

Mais uma vez, a taça não vai voltar para casa. Mas ele, o torcedor frustrado vai. E isso é um problema. Não só na Inglaterra.

Levantamentos realizados em diversos países, inclusive no Brasil, já mostraram o quanto a violência doméstica se agrava em dias de jogo de futebol. É pior ainda quando o time perde.

Em 2022, a organização inglesa Women’s Aid lançou a campanha He’s Coming Home, com esse alerta. Neste ano, durante a Copa do Mundo de Futebol Masculino, a instituição voltou a chamar a atenção para o problema. A nova campanha lembrou que nos Mundiais de 2002, 2006 e 2010, os casos de violência doméstica cresceram 38% quando a Inglaterra perdeu um jogo e 26% quando venceu ou empatou.

Mulheres e crianças vítimas de violência doméstica conhecem bem a tensão quando ouvem o barulho da porta se abrindo, sinalizando a volta do agressor para casa. Elas não precisam de estatísticas para saber que, se ele volta do bar ou do estádio, as chances da violência escalar são ainda maiores. Tira sem pensar o cinto, e bate até cansar.

Não é o álcool nem o futebol que causam a violência contra as mulheres. Mas ambos podem potencializar um comportamento agressivo, autorizado por uma cultura que considera mulheres e crianças como objetos cuja única função é servir aos homens. A mesma cultura que naturaliza manifestações machistas e forja masculinidades tóxicas.

Daí vem o João Bosco defender a letra de Gol Anulado.

Quando você gritou mengo
No segundo gol do Zico
Tirei sem pensar o cinto
E bati até cansar

Em entrevista ao Estadão, Bosco disse que a música é uma homenagem ao Zico, alega que ela foi “proibida”, mas que não deixa de cantá-la.

Sua música não foi proibida, Bosco. Cante se quiser. Se você ainda acha bacana usar a violência para homenagear alguém, cante. Cante a sua “crônica social”.

Às pessoas “muito loucas”, “exageradas”, que precisam ser “melhor medicadas” porque problematizam a canção, resta lamentar que você tenha perdido a oportunidade de refletir sobre como essa cena foi parar numa letra de samba sobre a frustração de um homem que se sente traído ao descobrir que a esposa torce para o rival.

Aproveite o privilégio de ser livre para cantar e celebrar o que quiser, enquanto “identitários” são sempre os outros. Cante e celebre Gol Anulado. Continue cantando sem constrangimento os versos “Tirei sem pensar o cinto e bati até cansar”.

Enquanto cansadas estão as mulheres de tanto apanhar.

As opiniões emitidas pela autora não expressam necessariamente a posição editorial da Matinal.

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