
Golpe midiático-civil-militar
Hoje é dia de relembrar o golpe de 1º de abril de 1964, a maior mentira brasileira, empurrado para 31 de março para fugir da chacota. Só houve golpe em 1964 por que a mídia e o empresariado apoiaram por medo do comunismo, o espantalho que ainda justifica todas as canalhices da extrema direita. Em 1964, golpe midiático-civil-militar (Sulina), escrevi:
O golpe de 1964 foi midiático-civil-militar. Sem o trabalho da imprensa não haveria legitimidade para a derrubada do presidente João Goulart. Os grandes jornais de cada capital atuaram como incentivadores e árbitros. Um dos mais ferrenhos estimuladores do golpe foi o jornal carioca Correio da Manhã, que rapidamente perceberia o erro e passaria à oposição, perecendo durante o regime militar. Em editoriais sucessivos, em 31 de março e 1º de abril de 1964, o Correio da Manhã destilou o seu golpismo visceral. No ataque intitulado “Basta!”, decretou: “O Brasil já sofreu demasiado com o governo atual. Agora, basta”. Bastava de quê?
De tudo o que Jango representava: “Basta de farsa. Basta da guerra psicológica que o próprio governo desencadeou com o objetivo de convulsionar o país e levar avante a sua política continuísta. Basta de demagogia para que, realmente, se possam fazer as reformas de base”. E mais “Não contente de intranquilizar o campo, com o decreto da Supra, agitando igualmente os proprietários e os camponeses, de desvirtuar a finalidade dos sindicatos, cuja missão é a das reivindicações de classe, agora estende a sua ação deformadora às Forças Armadas, destruindo de cima a baixo a hierarquia e a disciplina”.
De fato, o Correio da Manhã não seria um aliado permanente dos golpistas: “Queremos as reformas de base votadas pelo Congresso. Queremos a intocabilidade das liberdades democráticas. Queremos a realização das eleições em 1965. A nação não admite nem golpe nem contragolpe (...)” Pelo visto, o Correio da Manhã não estava a par do que ocorria no Brasil que tentava cobrir, influenciar e julgar. A nação admitiu o golpe embalado como contragolpe. Em “Fora!”, o mesmo jornal definiu garbosamente: “Só há uma coisa a dizer ao Sr. João Goulart: “Saia!” Para o CM, “João Goulart iniciou a sedição no país”. Serviço completo. As reformas apavoravam.
Invocando o não cumprimento do artigo 83 da Constituição Federal, que estabelecia o conteúdo do juramento do presidente da República, “promover o bem geral do Brasil, sustentar-lhe a união, a integridade e a independência”, o Correio da Manhã torpedeava: “A nação não mais suporta a permanência do sr. João Goulart à frente do Governo. Chegou ao limite final a capacidade de tolerá-lo por mais tempo. Não resta outra saída ao sr. João Goulart senão a de entregar o Governo ao seu legítimo sucessor”.
Qual teria sido o erro de Jango?
Ter jogado “os civis contra os militares e os militares contra os próprios militares”. Jango seria o “maior responsável pela guerra fratricida que se esboça no território nacional”. Certo pudor ou estratégia obrigava o editorial a justificar-se: “Nós do Correio da Manhã defendemos intransigentemente em agosto e setembro de 1961 a posse do sr. João Goulart, a fim de manter a legalidade constitucional. Hoje, como ontem, queremos preservar a Constituição. O sr. João Goulart deve entregar o Governo ao seu sucessor porque não pode mais governar o País”.
Passados 49 anos do golpe, o jornal O Globo pediu desculpas pelo seu apoio à ditadura. O Correio da Manhã percebeu o erro apenas dois dias depois da grande mentira: no dia 3 de abril de 1964, publicou, na primeira página, um editorial intitulado “Terrorismo não!”. Era tarde.