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✉️ Guy Debord, o pensador do espetáculo

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✉️ Guy Debord, o pensador do espetáculo
Guy Debord. Foto:

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Guy Debord, o pensador do espetáculo

O leitor já deve ter notado que, volta e meia, eu cito Guy Debord, autor de A sociedade do espetáculo. Para mim, ele foi um dos maiores intérpretes do século XX. Francês, marxista, Debord construiu um pensamento original sobre cultura e mídia. Como nunca fui marxista, considero a parte da sua obra que se volta para o futuro parte do passado. Já a parte que analisa o funcionamento da sociedade do espetáculo, o que chamamos hoje de cultura midiática, é irretocável. A sociedade do espetáculo vive seu ápice.

Em Macunaíma, Mario de Andrade definiu com ironia os nós do Brasil: "Pouca saúde, muita saúva, os males do Brasil são”. Precisamos atualizar essa frase par “pouca profundidade, muita aparência, autoajuda e sertanejo, os males do Brasil são”. Entre nós o espetáculo não encontra freios.

Debord suicidou-se em 1994 depois de tomar conhecimento de que sofria de polineurite, uma neuropatia das fibras finas (nervos) que afeta os membros periféricos. No caso dele, a causa deve ter sido o alcoolismo.

Às vezes, penso que Debord se matou ao perceber que o seu diagnóstico dos males do mundo estava certo e não havia cura. E que seu prognóstico baseado em Karl Marx era tão verdadeiro quanto a cura por homeopatia.

Afinal, o que Debord disse de tão interessante? Em 221 fragmentos (teses), ele disse que “o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas mediada por imagens” (tese 4). O espetáculo, em outras palavras, é um modo de organização social, de estar no mundo, baseado na aparência, na fama e na simulação de relevância social.

Mais: “O espetáculo não diz nada além de, o que é bom aparece, o que aparece é bom” (tese 12). Se algo não aparece é por não ser bom. Se for bom mesmo, vai aparecer. Se algo vende, só pode ser bom. Se for bom, vai vender. Logo, sertanejos e autoajuda são bons. Por isso custam caro e têm alto valor de mercado. A massa quer comprar. Fica fácil de vender por aí.

Cada fragmento é um tiro na cara: “O espetáculo não canta os homens e suas armas, mas a mercadoria e suas paixões” (tese 66). Só importa o sucesso. Só o sucesso vende. Vende o que é leve, engraçado e fácil.

O ser humano da sociedade do espetáculo, que outro filósofo, Gilles Lipovetsky já chama de hiperespetáculo, não quer refletir sobre a vida que leva. Quer receber receitas de felicidade e ter contato com celebridades, encarnações do êxito. O espetáculo é a ideologia do resultado.

Nas redes sociais, o importante é o número de cliques, de curtidas, de seguidores, de repostagens e de comentários. O conteúdo é secundário.

A síntese mais perfeita do espetáculo (a cultura de mídia) está na tese 49: “O espetáculo é a outra face do dinheiro: o equivalente geral abstrato de todas as mercadorias”. No espetáculo só é real o que rende.

A cultura vive na clandestinidade. O espetáculo exibe-se em todas as telas. A sua mercadoria de trabalho é o entretenimento. Mesmo quando simula ir além, o espetáculo não trai a sua essência: entreter sem aborrecer.

O espetáculo nunca vende um conteúdo. Cobra pela forma.