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✉️ John Malkovich em Porto Alegre

Newsletter do Juremir #207

✉️ John Malkovich em Porto Alegre
John Malkovich e trio musical no palco do Simões Lopes Neto

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John Malkovich em Porto Alegre

Lotou o teatro Simões Lopes Neto para ver The Infamous Ramirez Hoffman, com o ator norte-americano John Malkovich, estrela conhecida do cinema. Quem não viu Quero ser John Malkovich? A força do nome mobilizou até quem teria, quem sabe, ido para a praia no feriadão ou ficado em casa protegido do calor insuportável dos últimos dias na capital gaúcha.

Afinal, não é todo dia que se vê ao vivo em Porto Alegre um ator indicado ao Oscar por filmes icônicos como Um Lugar no Coração e Na Linha de Fogo, que marcou também pela consistência dos personagens incríveis em filmes como Ligações Perigosas, Império do Sol e Ratos e Homens.

No palco, em Porto Alegre, na Sexta-feira Santa, John Malkovich esteve acompanhado pela pianista Anastasya Terenkova, pelo violinista Andrej Bielow e pelo bandoneonista Fabrizio Colombo. Em cena, interpretou texto do escritor chileno Roberto Bolaño (1953-2003), um dos mais badalados autores sul-americanos no mundo atualmente. Fez uma densa leitura musicada.

A vinda de John Malkovich a Porto Alegre foi obra do senso de oportunidade e paixão por grandes eventos de Luciano Alabarse, presidente da Fundação Theatro São Pedro. Ao seu estilo, não descansou enquanto não viu a ideia ser concretizada. Estava no meio do público para saborear o show.

Ao final, aplausos frenéticos. O ritmo da voz de Malkovich deu à história de Carlos Ramirez Hoffman, contada por Bolaño em Literatura nazi nas Américas, um tom encantatório, magnético, de angústia crescente. Esperava-se com ansiedade o próximo passo e até mesmo quem havia lido Bolaño parecia inclinado a querer confirmação na narração de Malkovich.

História de um homem que surge poeta e aviador militar, ao tempo do golpe contra Salvador Allende, pinta versos nos céus em acrobacias áreas e afunda-se no imaginário e na realidade do culto à tortura e à morte sob o signo do III Reich no sul do mundo. Até desaparecer sem deixar mais rastros do que os seus crimes expostos em fotografias em noite de gala e horror.

A pianista russa Anastasya Terenkova, o violinista ucraniano Andrej Bielow e o bandoneonista argentino Fabrizio Colombo, da Fundação Astor Piazzolla, fizeram um espetáculo que valia por si de tão lindo. Difícil não se emocionar com um bandoneon bem tocado para quem tem pampa na alma!

Dei o meu naco de amor à arte. Apesar de estar com uma faringite ou coisa que o valha, fomos ver John Malkovich. Eu temia a fúria do ar-condicionado. Fui armado de pastilhas e casaco. Poucos antes de começar, uma tosse que ainda não havia me acometido ameaçou testar os ouvidos da plateia. Tracei rota de saída em caso de aperto e até pensei em ceder meu lugar no meio para alguém na ponta. Chupei uma pastilha, levantei a gola da camisa até tapar a boca e mergulhei no espetáculo. Vez ou outro um vento vindo da Patagônia me beijava a nunca e agitava a minha garganta. Eu resistia. Depois, amainava. Cheguei ao fim encantado e de alma lavada.

O ar-condicionado do Simões Lopes Neto vai bem, obrigado. Eu é que desafiei os deuses da garganta. Lembrei-me de quando vi Canibal, no Festival de Berlim, sentado ao lado de Laurie Anderson, sem poder tremer.

Lembrei também de quando vi Quero ser John Malkovich em Porto Alegre e fui tomado pela angústia de não ser EB, um autor que publicava tantos livros, aos quais ninguém prestava atenção, que precisava levá-los num carrinho de supermercado para mostrá-los a jornalistas empedernidos. Tinha pesadelos com a cena de Malkovich: era eu gritando “não quero ser EB”.

Roberto Bolaño morreu em Barcelona. Na luta pelo sucesso.