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✉️ Jornalismo e Copa do Mundo

Newsletter do Juremir #208

✉️ Jornalismo e Copa do Mundo
Foto: Adidas/Divulgação

OFERECIMENTO:

Jornalismo e Copa do Mundo

Descobri que queria ser jornalista aos oito anos, em Palomas, zona rural de Santana do Livramento, região da campanha gaúcha, na fronteira com o Uruguai. Era Copa do Mundo. O Brasil de 1970 arrasava no México com Pelé, Tostão, Rivelino, Jairzinho e cia. Cantávamos ingenuamente “pra frente, Brasil, salve a seleção”. Enquanto isso o movimento tupamaro germinava no Uruguai e brasileiros passavam por Palomas, caminho natural para a cidade uruguaia de Rivera, situada a vinte quilômetros do nosso rincão, fugindo da ditadura do general Emílio Garrastazu Médici, tão gaúcho da campanha quanto eu, só que de Bagé. O regime militar vivia o seu triste apogeu.

Ouvíamos em rádio de pilha a Guaíba, a grande emissora do Rio Grande do Sul na época. Fiquei apaixonado por aquelas vozes que falavam de tão longe, com tanta vibração, e decidi que seria jornalista – sem ainda conhecer essa palavra nem imaginar os seus perrengues –, para viajar como eles, falar como eles, viver como eles sugeriam que viviam. Só me faltava a voz deles. Em 1994, quando terminou a Copa do Mundo dos Estados Unidos, a Rádio Gaúcha, nova líder de audiência no segmento jornalístico do Rio Grande do Sul, me contatou para que eu, morando em Paris, desse o pontapé inicial da cobertura da copa seguinte, que aconteceria na França. Tive a oportunidade de dizer a Lauro Quadros, uma daquelas vozes das copas do mundo que me haviam encantado quando criança, que escolhera ser jornalista por causa dele. Lauro havia se consagrado misturando coloquial, popular, descontração e precisão em tudo o que dizia e fazia.

Não posso culpá-lo por minhas escolhas.

Como diz uma canção, começaria tudo outra vez se preciso fosse.

Mais uma copa se aproxima. Continuo jornalista. Mesmo sabendo que jornalismo e censura se confundem no Brasil. Fui censurado em quase todos os veículos onde trabalhei. Durante muito tempo, porém, havia certo verniz de tolerância e uma ilusão de autonomia relativa, algo que tornava tudo mais suportável. Então a fachada do pluralismo acabou. A mídia passou a dividir-se em apenas dois grupos: o dos com direito a assumir lado e o dos demitidos por supostamente terem um. No primeiro caso, ter posição virou um selo de qualidade a ser divulgado em todos os espaços de um veículo.

No segundo, uma suspeita ou uma acusação capaz de provocar, de acordo com a palavra na moda, cancelamento. Doloroso para alguém era ser dispensado sem ter lado, apenas por ter sido aplaudido por um deles. Liberdade de expressão, como aprendi em quatro demissões, é a autorização provisória dada pelo patrão para que um jornalista opine até que isso contrarie demais os interesses, nem sempre republicanos, da empresa. Houve quem definisse essa época como neofascista. O liberal pluralista convivia com o contraditório e se olhava no espelho com satisfação. O neofascista só pensava em eliminar o divergente e em impor sua visão de mundo. Era tempo de começar a escrever memórias. Ainda ouço as vozes no rádio ABC.

Nunca mais o Brasil jogou tanto quanto naquela Copa. Dificilmente será neste ano que fará algo espetacular. Verei na televisão. Em silêncio.