
Lições de Cabo Verde
Como se diz agora, por mimetismo do inglês, não é apenas sobre futebol, mas também sobre a vida. Ou sobre o futebol como metáfora da vida. Na sociedade da mercadoria tudo deve ser convertido em valor de troca. Para vender seu produto, cada um tem de envolvê-lo numa embalagem chamativa. Ou seja, dar um imaginário ao que sem isso seria visto como banal ou simples.
No futebol, treinadores e mídia passaram a investir no imaginário científico. Não se trataria de um esporte de talentos inatos e de acertos, erros, acasos, imprevistos e até sorte, mas de uma atividade parametrizada por especialistas, em que cada lance seria planejado pelo técnico e confirmado por estatísticas e análises de dados e de desempenho. O futebol europeu não seria mais vistoso por contratar os melhores atletas do mundo inteiro, mas pela inteligência estratégica dos treinadores que “estudam”.
Uma nova forma de vira-latismo, para usar a expressão impagável do cronista Nelson Rodrigues, ganhou dimensão estratosférica: a adoração do técnico estrangeiro. O colonizador voltou a fascinar o colonizado. Nada de adotar um estilo próprio e de ganhar dos europeus com epistemologias locais do futebol. Em lugar do improviso, a planificação dita científica.
Cabo Verde pisoteou o vira-latismo colonizado dominante no Brasil. Com garra, paixão, talentos individuais até então desconhecidos e coragem, parou a sempre pretensiosa Espanha e a tradicionalmente arrogante Argentina. Não perdeu para essas duas poderosas seleções nos 90 minutos.
Várias seleções africanas mostraram desempenho extraordinário. Teve quem não passou paras as quartas de final por erro de arbitragem. Se não erro crasso, interpretações a favor dos mais fortes de sempre. A grande surpresa, no entanto, foi Cabo Verde, começando pelo goleiro Vozinha, de quarenta anos, que pegou chute de Messi cara a cara, daqueles que o astro argentino não costuma perder. Em nenhum momento Cabo Verde se acovardou. Se privilegiou a marcação, foi para o ataque quando precisou e sufocou o adversário até o final da prorrogação. A Argentina tomou um choque.
Futebol aperfeiçoa talento. Treinamento contribui para a internalização de reflexos e combinações. Tática estrutura o jogo. Só que há mais: criatividade, controle motor natural, ousadia, ações inesperadas e tomadas de decisão instantâneas que não podem ser antevistas por técnicos.
Parafraseando o filósofo alemão Martin Heidegger, a essência da técnica do futebol não é técnica. É o que então? Talvez mágica. É arte.
Um amigo me perguntou certa vez se existia coach para escrever romance. Até existe. Só que a arte não tem receita. Consiste em criar o que ainda não existe, inventando estilo e novos parâmetros de interpretação.
Cabo Verde nos ensinou que a mais enraizada forma de colonialismo, aquela que faz o colonizado se ver como superior em relação aos seus congêneres resistentes, é o vira-latismo. O pior vira-latismo é o que se apresenta como científico tal qual o dos especialistas neotáticos do futebol.
Obrigado, Cabo Verde. Só falta se livrar de um atleta estuprador.
E o Brasil na Copa?
Pode-se debitar na conta do italiano o fracasso.
Nunca um treinador acadelou tanto a seleção brasileira.