
Lula pode desistir?
Quando Lula disse na entrevista ao ICL que ainda não tinha decidido se será candidato à presidência república em 2026, eu fiquei me perguntando: por que ele falou isso? Qual é a sua estratégia? Como fica?
Como ninguém pareceu dar bola, esqueci. Aí começaram a aparecer especulações sobre Fernando Haddad no lugar de Lula. O ex-ministro da fazenda teria sido consultado pela Faria Lima. Sim, pelos donos do dinheiro. Ter Haddad é melhor do que Flavio Bolsonaro. Achei que a questão estava morta. Então veio o Ricardo Kotscho, amigo de Lula e seu ex-assessor pessoal, e na sua coluna no UOL retomou essa possibilidade de desistência perguntando: “E se Lula desistir da reeleição, quem entra no seu lugar?”.
A coisa ficou séria. Lula vai desistir? Kotscho alarmou os gansos, os eleitores, a Faria Lima e o Brasil: “Não, desta vez não se trata de uma especulação malvada dos adversários políticos nem dos colunistas isentos que há tempos gostariam de vê-lo pelas costas: esta semana, pela primeira vez, a seis meses da abertura das urnas, o próprio Lula admitiu a hipótese de desistir da reeleição, em entrevista ao portal ICL, que apoia seu governo. ‘Ainda não sei se serei candidato’”. E agora, cidadãos, como fica?
Kotscho é de casa. Lula telefona para ele a cada aniversário. Lula tem o peso da idade. É octogenário. Pode estar querendo descansar. Sabe do quanto a esquerda precisa dele para derrotar o bolsonarismo, mas pode estar sentindo que, se não parar agora, terá de carregar um fardo pesado por mais quatro anos. Quando vai aproveitar a vida? Quando vai viver sem reuniões? Quando vai curtir a vida sem terno e gravata? Quando vai relaxar e gozar?
Lula gosta de ser presidente da República. Parece não sofrer com a carga de compromissos a enfrentar todo dia. Mesmo assim, deve pensar, como qualquer um, em tempo pela frente para viver sem ter um país nas costas.
O grande problema é que o PT não tem um substituto à altura: carismático, com uma história de vida de filme, campeão de comunicação, sedutor, inclinado por natureza para a negociação, essas coisas assim.
Haddad tem competência. Só lhe faltam os outros atributos. No texto de Kotscho chama a atenção a sugestão para o caso de Lula refugar: Geraldo Alckmin. Para um membro da guarda mais próxima de Lula, surpreende. Mostra o quanto Alckmin ganhou a confiança dos círculos petistas próximos de Lula.
O que vai acontecer? Só Lula sabe. Ele prometeu a decisão para junho. Kotscho acha que Lula não desistirá. Por que então lançou essa pedra?
Como se diz que Lula não dá ponto sem nó, algo deve ter. O que mesmo? Talvez seja só um modo de desviar o foco das candidaturas postas. Salvo se for um pouco de carência: estará Lula querendo que o povo peça para ele ficar? Estará Lula valorizando o passe? Quer ser conduzido nos ombros?
Se for isso, será facilmente atendido. Não é de duvidar que até parte da Faria Lima peça para ele ficar. Afinal, as opções da direita constrangem. Ter Flavio Bolsonaro de presidente é investimento de risco.